quarta-feira, 28 de março de 2018

HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PRIMEIRA PÁGINA


BRASÍLIA E SEUS CONTRASTES 
58 ANOS DEPOIS DA FUNDAÇÃO

A ideia de centralizar a capital do Brasil era antiga. Vinha desde o ano de 1823, quando José Bonifácio Andrada e Silva (1763-1838) propôs a mudança.
Isso só veio a ocorrer no governo do presidente Juscelino Kubitscheck conhecido pela ambição de executar o projeto que denominou “50 anos em 5”, entre os anos de 1956 a 1961.
Brasília foi inaugurada no dia 21 de abril de 1960. Seus construtores, que ficaram conhecidos como “candangos” (nordestinos em sua maioria) deram origem às cidades-satélites no entorno da nova capital.
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HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PÁGINA 2

EDITORIAL

Roupagem nova

As forças golpistas destroem o país.
Sob a liderança de um presidente ilegítimo, apoiado pela mídia, pelo Judiciário e pela maioria dos parlamentares do Congresso Nacional, estamos a viver uma crise econômica, política e moral  sem precedentes.
Todas as decisões tomadas por esse grupo estão a afetar milhares de pessoas, a trazer de volta a fome, a miséria e o desemprego.
As riquezas da pátria são entregues de graça à sanha dos capitalistas estrangeiros neoliberais.
O golpe foi institucionalizado e neste mês de abril de triste memória voltamos a nos defrontar com antigos fantasmas.
Se antes a ditadura institucionalizou-se através dos militares, hoje ela é institucionalizada pela mídia, pelo Judiciário e pelos parlamentares da direita neoliberal.
Retomar o caminho da democracia vai ser muito difícil, já que os tubarões do poder estão a trazer de volta a censura, as coerções e a violência fardada.
O Judiciário, com seus salários e benefícios obscenos e com atuação partidarizada, não hesitou em violar leis para ser conivente com o golpe.
Cerca de 80% do Parlamento também entra nessa linha, bem como a maioria dos governos estaduais.
Na verdade, esse golpe, perpetrado com a derrubada de uma presidente eleita pela maioria do povo brasileiro, evidencia a falência do nosso sistema político e partidário.
Tudo nos remete de volta a um período negro. Entre 1964 e 1985. Com outras roupas, é claro, mas sempre trazendo de volta o poder da Casa Grande sobre o povo.
As mudanças exigem luta. Com o povo na rua. Nada de acreditar na elite econômica e política, pois esta só atende a espúrios interesses particulares e ao capital internacional, jamais aos anseios da população.
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BRASÍLIA - CAPITAL DA SEGREGAÇÃO
Especial do Humanitas

Brasília, a capital do Brasil, tem um elevado índice de segregação, tanto no espaço físico como na questão sociocultural. Nela se percebe a acumulação de riqueza, de um lado, e do outro lado a socialização da miséria.
Essa miséria tornou-se preponderante desde os primeiros passos dados para a sua construção, com a chegada dos “candangos”, que começaram a erguer barracos e casas de madeira, mostrando quem iria ocupar a periferia.
Estudo feito por pesquisadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) mostra que o processo de periferização, que em outras grandes cidades aconteceu por pressões do mercado imobiliário, em Brasília foi instituído pelo próprio governo.
"O processo de implantação dos núcleos urbanos foi extremamente segregacionista desde a sua origem", afirma Frederico de Holanda, um dos responsáveis pela pesquisa.
Em 1958, uma parte dos operários foi convencida por assistentes sociais a se mudar para os loteamentos da primeira cidade-satélite que surgia: Taguatinga, a 20 quilômetros do Plano Piloto.
Pouco mais de uma década depois, com a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) criada pela administração de Brasília, surgia ao lado de Taguatinga aquela que seria a maior cidade-satélite: Ceilândia.
"A remoção dos moradores de várias favelas deu origem a essa cidade", conta Holanda.
No censo de 1980, Ceilândia já possuía uma população maior que a do Plano Piloto.
Existe um abismo entre ricos e pobres que vivem na capital federal que, mesmo sendo o centro de poder do Brasil, mostra uma segregação e um contraste populacional enorme.
É por esse motivo que Brasília é conhecida por muitos como "Ilha da Fantasia", por ser um mundo à parte.

HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PÁGINA 3

REFÚGIO POÉTICO – CARTAS DOS LEITORES – TESTE DE XADREZ

Primeiro de abril
 Valdeci Ferraz – Recife/PE

Menino,
onde você estava quando quebraram a manhã
e soltaram os elefantes pelas ruas?
Enquanto seus pés chutavam sapotis
coturnos sem alma esmagavam as flores
e os fuzis anunciavam uma noite sem fim.

Menino,
você não ouviu o pio triste
de um pássaro sufocado
pelas cordas de um violino mudo?
Não reparou na cor do vento,
nas rugas das árvores,
nos bancos das praças?

Menino,
trocaram o seu uniforme
pelo aborto de um sonho invertido
para manter a pergunta sempre se repetindo no ar:
Mamãe! Quando papai vai chegar?
Menino, vai dormir, a noite chegou.

Menino,
onde você estava quando soou a corneta?
O que trazia nas mãos? O que trazia na mente?
Onde ficou o riso inocente,
a calma aparente, o quadro pintado,
a vida latente?

Menino, quem esticou o tempo
para não perder o trono?
Quem se arrastou na lama
para enfrentar velhas utopias?
Quem compôs uma sinfonia de trás para a frente?
Quem esmagou o sonho com balas de chumbo?

Ah!
Você não ouviu o grito das velhas árvores!
Não viu o sangue escorrendo entre as flores!
E quando a noite chegou, onde você se escondeu?
Ah! Você não sabia da carta marcada
porque só ouvia a mesma piada.
O mesmo tom. A mesma nota. O mesmo som.
E trouxeram guizos e plumas,
prenderam os homens e seus sonhos,
porque era o primeiro dia
de um dia que nunca acabaria.

Menino,
por um momento escuta o vento,
ouve o lamento dos que tombaram no palco
pois ainda se move nas sombras
o Leviatã implacável.
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CARTAS DOS LEITORES
Exatamente assim. No saber e no conhecer a vida pela qual passo e passei por este mundo foi um grande prazer conhecer e ser leitor do jornal HUMANITAS. Aqui parabenizo o jornalista, escritor, poeta e amigo Rafael Rocha por essa bela criação. Edward Correia Spinoza – Nova Iorque (EUA)

HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PÁGINA 4

SOCIEDADE É RACISTA PORQUE ACREDITA QUE SEU DEUS É BRANCO
Anna Gicelle Garcia Alaniz é doutora em História. Atua em Campinas/SP

Não é fácil lidar com a história do cristianismo porque há muito preconceito, há muito obscurantismo e há muita perseguição religiosa sempre que os cristãos conseguem poder suficiente para impor seus pensamentos aos outros.
A partir dai eu quero refletir sobre o que eu já disse do racismo e aí vai a questão do Wellington.
O Wellington se preocupa com o pentecostalismo e com o fato de hoje haver no Brasil muitos negros cristãos.
E eu entendo a revolta do Wellington porque o modo como os cristãos aplicam a Bíblia está lotada de referências terríveis não apenas em relação a quem não é branco, mas também às mulheres.
Existem muitas estátuas do frei Bartolomé de Las Casas por esse mundo e muita gente canoniza o frei Bartolomé como se fosse grande coisa, mas ele dizia que os negros não tinham alma e que isso justificava a escravidão.
Eu já passei em vídeos as referências de vários monges jesuítas cujos textos não só corroboram a escravidão, mas ainda ensinam como castigar os escravos, como educar, como fazer lavagem cerebral para que virem cristãos.
É terrível de se pensar no caráter medonho da imposição cristã aqui na América.
No caso do pentecostalismo eu iria mais longe, os EUA, que é o berço de todas essas atrocidades, é um dos piores países quando se vai falar de escravidão.
As revoltas escravas dos EUA foram medonhas.
Houve uma guerra civil que dizimou milhões de pessoas em torno da questão da escravidão e não é uma questão só econômica.
Eu devo dizer que, de tudo que eu pesquisei, a única denominação religiosa dos EUA que se opôs a escravidão foram os Quakers.
Os Quakers de fato ajudaram a dar fuga a muitos escravos para o Canadá para que fossem livres e ainda assim não aceitavam os negros como seus iguais.
A maior prova de que tinha esse tipo de racismo é que as igrejas protestantes nos EUA foram segregadas e muitas são segregadas até hoje.
E muitas vezes em algumas igrejas em que se tinha uma atitude mais humana, ‘em termos’, o negro assistia missa ou culto do lado de fora, pelas janelas ou em algum corredor.
Então existe uma carga de racismo medonha no cristianismo.
E uma boa parte da nossa sociedade que permanece racista, permanece racista porque acredita que deus é branco.
É muito revoltante saber que a religião que pretende ser a bússola moral da sociedade é responsável por segregar, perseguir e atormentar, para não dizer matar mulheres, negros e homossexuais.
Eu conheci uma senhora negra há muito tempo atrás que dizia que se ela visse um negro mórmon na rua, ela mesmo batia. Porque até os anos 1970 os negros não podiam ser mórmons porque eram considerados impuros. Eu não sei nem como abordar isso! Eu não sei nem como lidar com essa questão!
Nós estamos hoje rodeados por esse fundamentalismo besta, literal que pega um texto da Idade do Bronze e quer aplicar na vida moderna ao mesmo tempo em que enriquece pastores totalmente sem escrúpulos.
Gente que entra para a política para atormentar o resto da sociedade.
Tão arrogantes que acreditam que podem impor o seu modelo de pensamento e de vida para todos nós.
É muito difícil permanecer no campo histórico sem pensar que a qualquer momento os direitos ínfimos conquistados por mulheres, negros e homossexuais podem ser revogados se um desses malucos conseguir se apossar do poder.
Nada impede que a pessoa tenha seu relacionamento com deus se acredita nele.
Nada impede que uma pessoa siga uma religião se isso lhe traz alívio emocional.
O que se precisa é de mais educação, mais conhecimento e mais respeito. Mais respeito pelo resto da humanidade.
Nós já passamos mais de 600 anos de guerra em guerra, de perseguição em perseguição.
Nós tivemos a Inquisição, nós tivemos a Caça às Bruxas, nós tivemos a Segunda Guerra Mundial e tudo isso calcado em cima da perseguição religiosa.
Eu acredito que já está na hora de a humanidade acordar.
Se você quer ser fundamentalista vá viver no Vaticano.
Se você quer que as mulheres fiquem trancadas em casa, vá viver no Irã.
Se você não gosta de gays, não gosta de negros, se você não quer conviver com a maior parte da humanidade, se tranque em um mosteiro, mas deixe que a humanidade siga o seu caminho que a duras penas nós temos conquistado graças às pessoas que se opuseram a esse livro Bíblia ao longo da história.
VEJA OS VIDEOS EM:

HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PÁGINA 5

O AVANÇO DO FASCISMO NO BRASIL
Valdeci Ferraz é escritor e advogado. Atua na cidade do Recife/PE

Em 1921, os fascistas passaram a desenvolver um programa que exigia a República, a separação da Igreja do Estado, um exército nacional, um imposto progressivo para heranças e o desenvolvimento de cooperativas.
“A palavra fascismo vem do termo italiano fasci” que significa feixe. O feixe de lenha amarrado foi um símbolo muito usado em Roma Antiga. Simbolizava a força na união, segundo a metáfora de que um galho sozinho pode ser quebrado, porém unidos tornam-se bem resistentes. Benito Mussolini resgatou esse símbolo ao fundar o Partido Nacional Fascista em 1922” (Wiquipedia).
“Tanto um movimento como um fenômeno histórico, o fascismo italiano foi, em muitos aspectos, uma reação à falha aparente do laissez-faire e ao medo dos movimentos de esquerda, apesar de que as circunstâncias na história intelectual devem ser consideradas, como o abalo do positivismo e o fatalismo generalizado do pós-guerra na Europa” (Wiquipedia).
O avanço do fascismo no Brasil não surpreende aqueles que conseguiram ver, ainda na fase conturbada do impeachment, os primeiros sinais contidos no programa “Uma Ponte Para o Futuro” apresentado pelo PMDB, através do então vice-presidente Michel Temer.
Analisando as trinta propostas vê-se claramente a intenção de frear os mecanismos capazes de melhorar a situação de grande parte dos brasileiros, e favorecer o fortalecimento dos poderosos.
Uma vez alçado ao poder graças ao apoio do Judiciário, o presidente tratou logo de querer ver aprovadas as reformas que concretizariam o seu objetivo. Através de manobras e concessões conseguiu aprovação da Reforma Trabalhista e da Educação, porém, a mais importante ele não conseguiu, a da Reforma Previdenciária, graças à forte reação da sociedade brasileira. A situação brasileira é muito parecida com a que se encontrava a Itália após a Primeira Guerra Mundial e que provocou o surgimento do fascismo.
“Sob o estandarte desta ideologia autoritária e nacionalista, Mussolini foi capaz de explorar os medos perante o capitalismo numa era de depressão pós-guerra, o ascendente de uma esquerda mais militante, e um sentimento de vergonha nacional e de humilhação que resultaram da "vitória mutilada" da Itália nos tratados de paz pós Primeira Guerra Mundial. Tais aspirações nacionalistas não realizadas (ou frustradas) manchavam a reputação do liberalismo e do constitucionalismo entre muitos setores da população italiana” (Wiquipedia).
O que estarrece é a completa passividade do povo brasileiro diante da ameaça desse governo que pode descambar para um regime absolutista, autoritário e desumano.
Compreende-se que a criação de um vácuo no sistema pressupõe o seu preenchimento por aqueles que estão à espera da oportunidade.
Não fosse o grave envolvimento do presidente Temer com a Justiça,  ele estaria cotado para continuar no poder através de sua eleição no sufrágio que se aproxima.
Derrotada a Reforma Previdenciária, logo o foco foi direcionado para um problema que aflige os brasileiros, a violência e a insegurança pública, principalmente no estado do Rio de Janeiro. Isso deu oportunidade para o governante trazer de volta uma vertente sem a qual não se pode contar com a vitória: “os militares”.
Lembremos o grave mal que sofreu a sociedade brasileira com a doutrina da Segurança Nacional, usada pelos militares no período 1964/1985, como pretexto para uma ação despótica e desumana, fazendo desaparecer sumariamente muita gente interessada apenas na igualdade social. 
Portanto, não estranhemos se nossos políticos fascistas, na sua maioria, intentarem novos golpes para garantir a manutenção de seus privilégios e dos seus correspondentes nos poderes Judiciário e Executivo.

HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PÁGINA 6

A MENTIRA E OS GOLPES DE ESTADO
Rafael Rocha é jornalista e editor geral deste Humanitas. Atua no Recife/PE

O “Dia da Mentira” surgiu na França em razão da mudança na data da festa de ano novo, que antes era comemorada no dia 25 de março e, tendo a duração de uma semana, terminava no dia 1º de abril.
Após a implantação do calendário gregoriano, o rei Carlos IX escolheu o dia 1º de janeiro para ser o início do ano.
Porém, muitas pessoas não gostaram da mudança e continuaram fazendo suas festas na data antiga.
Naquela época, as notícias demoravam muito para chegar às pessoas, fato que atrapalhou demais a mudança.
Portanto, elas passaram a fazer brincadeiras e gozações com aquelas consideradas conservadoras, enviando-lhes presentes estranhos ou convites para festas que não ocorreriam.
Assim, a data passou a ser duvidosa, pois os resistentes nunca sabiam se tais convites eram verdadeiros ou não.
Duzentos anos mais tarde essas brincadeiras se espalharam por todo o mundo, ficando a data mais conhecida como o “Dia da Mentira”.
Na França seu nome é "poisson d'avril" e na Itália esse dia é conhecido como "pesce d'aprile", ambos significando peixe de abril.
Pernambuco foi o primeiro Estado do Brasil a adotar a brincadeira, quando da circulação de um jornal chamado "A Mentira", em 1º de abril de 1848, tendo como notícia o falecimento do imperador Dom Pedro II.
A notícia, como se sabe, foi desmentida no dia seguinte.
É assim que vemos o quanto a mentira é uma coisa bastante velha na política nacional.
Ela foi definitivamente incorporada ao nosso calendário, não devido à brincadeira feita pelo jornal "A Mentira" em 1848, mas em época muito mais recente.
O “Dia da Mentira” sempre foi seguido no país como algo para se brincar uns com outros tal e qual se fazia em todas as partes do mundo, até que no 1º de abril de 1964 homens fardados e determinados setores civis, religiosos e corporações capitalistas estrangeiras institucionalizaram a data.
Essa é uma data que jamais deve ser esquecida.
É uma data verdadeira onde aconteceu algo horrendamente verdadeiro, criado por pessoas verdadeiras que levaram a nação brasileira durante mais de 20 anos a ver seus patriotas, jovens e velhos, homens e mulheres, serem perseguidos, assassinados, torturados e vigiados pelos usurpadores do poder democrático.
A mentira era o que eles pregavam. Mentiam quando diziam defender os ideais democráticos.
Falsearam até a data do golpe, repuxando-a para o 31 de Março no intuito de iludir a população.
Hoje voltamos a sofrer os mesmos problemas vinculados àquele 1º de Abril de 1964.
A violência, saúde sucateada, educação estrangulada, desemprego, fome, miséria têm ligação direta com o golpe militar que extinguiu a nossa engatinhante democracia da época e hoje voltam a se tornar reais.
O nosso País convive dentro de um novo Golpe de Estado e os homens idealistas estão temerosos do retorno daqueles 21 anos da ditadura dos homens fardados que prenderam, arrebentaram, mataram e torturaram.
Temerosos de uma ditadura com novas roupagens, onde o Judiciário, a Grande Mídia, a maioria do Parlamento, as igrejas fundamentalistas cristãs venham torturar e assassinar os idealistas, apenas porque estes sonham com um país democrático.
A sociedade brasileira foi enganada durante anos pelos militares e civis golpistas.
E volta a ser enganada por novos golpistas, liderados por um governante ilegítimo, por homens vestidos de toga, por outros com uma bíblia nas mãos, e outros sendo parlamentares mentirosos e corruptos, pregando a necessidade de ordem.
Eles falseiam tudo e têm a mídia como cúmplice.
Não custa nada, para finalizar, citar aqui a frase dita por Hannah Arendt: "Não há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que acontece..."

HUMANITAS Nº 70 – ABRIL DE 2018 – PÁGINA 7

SOLIDARIEDADE: UMA MANIFESTAÇÃO DE GRANDEZA

Ana Leandro – colaboradora do Humanitas -  é escritora e jornalista. Atua em Belo Horizonte/MG

Entrou em disparada escola adentro (a mesma escola, que por tantas vezes entrara para buscar o conhecimento) e começou a atirar a esmo.
Cegamente, como se não quisesse matar ninguém especificamente, mas ao mesmo tempo quisesse exterminar a todos.
Deixou nove feridos em sua sanha de destruição e depois invadiu a área de serviço, sob o olhar incrédulo da  zeladora, que implorava piedade.
Neste momento voltou lentamente o revólver para a própria cabeça e atirou. Acabou com uma vida de dezoito anos. Suspeita-se que o motivo foi complexo de inferioridade, pela obesidade!
Na obra de Guimarães Rosa - “A terceira  margem do rio” – pode-se inferir a procura insana de um personagem por uma margem onde a dureza da vida é feita apenas pela natureza, não pelos desencontros. Aliás, estes ele não queria encontrar, motivo de sua opção de viver em uma canoa no meio do rio.
Na metáfora da vida, podemos dizer que a terceira margem das relações humanas é um local que exige o esforço de cada um, em sair de sua respectiva margem, para um encontro no meio, onde se possa estabelecer um diálogo navegável com o outro.
A famosa “solidariedade” que as pessoas parecem querer mostrar tão ostensivamente nas situações de calamidade pública, não se manifesta, entretanto, no dia a dia, nem mesmo nas relações mais próximas.
Os preconceitos em relação à estética, raça e outros aspectos, não pesariam tanto nas pessoas, se deixássemos nossas confortáveis margens, para aceitá-los como são.
 É claro que o caso real que inicia este artigo evidencia uma situação de distúrbio psicoemocional, pela gravidade da culminância. Mas sempre devemos nos perguntar, até que ponto um ser humano não cultiva anos a fio uma infelicidade, por se sentir rejeitado ou discriminado por um grupo.
 Frases irônicas, brincadeiras humilhantes, apelidos e outras tantas maneiras “sutis” de abordar uma diferença, são ferramentas perversas, que baixam a autoestima do ser humano e o fazem sentir-se desamado, ou sem interesse de viver. 
Mostrar-se “bom e solidário”, para que todos batam palmas é fácil, mesmo porque existem pessoas que assim procedem, apenas para sentirem um certo sentimento de “superioridade” sobre o outro.
Ser capaz de colaborar com a felicidade do próximo, sem que ninguém nem mesmo perceba, é, sobretudo uma manifestação de grandeza. E às vezes, basta uma palavra de incentivo, um convívio de respeito e compartilhamento, para que o outro se sinta confortável e até com mais forças, para vencer suas próprias dificuldades. 
Somos seres em processo de evolução e como tal todos temos imperfeições. Na busca de aperfeiçoamento, precisamos desenvolver valores, que nos fortifiquem na aceitação do que somos. Isto por si só, já elimina os complexos e as dificuldades de autoaceitação.
Mas é também nosso papel, auxiliarmos aqueles que encontram mais dificuldades para este ajuste.
Negar auxílio para quem necessita de uma palavra de afeto, ou de um gesto de aceitação, é tão grave quanto negar água a quem tem sede.