sexta-feira, 23 de outubro de 2015

HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 8

Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra
Especial para o Humanitas

Rafael Rocha é jornalista e editor-geral deste Humanitas. Mora no Recife/PE

O Dia Nacional da Consciência Negra (comemorado em 20 de novembro) pode servir para que as pessoas reflitam sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data coincide com o dia da morte do líder negro Zumbi dos Palmares.
Apesar de a “história oficial” marcar a abolição da escravatura no dia 13 de maio de 1888, os negros não acatam essa ação, deixando de lado o 13 de maio para lembrar e festejar o 20 de novembro.
Para integrantes do Movimento Negro, o 13 de maio é uma data a ser reelaborada, porque mesmo tendo ocorrido uma abolição formal, os negros continuaram excluídos do processo social. Após a princesa Isabel ter decretado o fim da escravidão, as classes dominantes não contribuíram para inserir os ex-escravos em um novo formato de trabalho.
Como bem salientou o sociólogo Florestan Fernandes em sua obra “A integração do negro na sociedade de classes”:os senhores de escravos foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumissem encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho”.
O acesso à terra não foi concedido aos negros e até o precário espaço no mercado de trabalho ocupado por essa população foi entregue a trabalhadores brancos ou estrangeiros
Na realidade, a abolição legal da escravidão não garantiu condições reais de participação na sociedade para a população negra no Brasil.
Em nosso país existe uma valorização dos personagens históricos de cor branca.
Até parece que a história do Brasil foi construída pelos europeus e seus descendentes.
Imperadores, bandeirantes, líderes militares entre outros foram sempre considerados heróis nacionais. Mas no dia 20 de novembro valoriza-se um líder negro em nossa história.
O líder é Zumbi dos Palmares! O grande herói de uma raça que, mesmo sob o jugo violento do chicote, nunca deixou de sonhar e lutar pela liberdade.
Hoje, após mais de três séculos, quando o Brasil é o segundo país do mundo em número de negros, Zumbi continua sendo símbolo de luta e denúncia da discriminação racial, na busca de uma sociedade mais justa, fraterna e sem preconceitos.
Para os negros, ele ainda vive. Sua luta, sua determinação os inspira, os enche do orgulho.
Zumbi é, sem dúvida, o maior símbolo da liberdade, da força.
Através dele os negros mostram que continuam tentando vencer para conscientizar o mundo de que também são capazes de revolucionar e de mudar esse mundo racista.
O nome de Zumbi apareceu pela primeira vez em documentos portugueses, em 1673, quando uma expedição chefiada por Jácome Bezerra foi desbaratada.
Tornou-se um grande guerreiro e estrategista militar na luta para defender o quilombo dos Palmares contra os soldados portugueses.
Foi ferido com um tiro na perna, em 1676, em um combate contra as tropas de Manuel Lopes Galvão.
Em 1692, o quilombo foi atacado por Domingos Jorge Velho, ficando completamente sitiado, mas só capitulou no dia 6 de fevereiro de 1694, quando o exército português conseguiu invadir o local, derrotando os quilombolas. Baleado, Zumbi caiu num desfiladeiro, o que deu origem ao boato que o herói tinha se suicidado para evitar voltar à vida de escravo.
Porém, ele conseguiu escapar e, em 1695, voltou a aparecer, atacando algumas povoações em Pernambuco. Só foi capturado no dia 20 de novembro de 1695, após traição de um dos seus principais comandantes, Antônio Soares, que revelou o esconderijo de Zumbi em troca da liberdade. O líder negro foi morto, esquartejado e teve a sua cabeça exposta em praça pública na cidade de Olinda, em Pernambuco.


HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 7

Um negro comunista na Assembleia Constituinte
Pedro Rodrigues Arcanjo - Olinda/PE

Claudino José da Silva era filho de lavradores pobres, nascido no dia 23 de julho de 1902, no município de Natividade (MG).
Foi aprendiz de carpinteiro em Niterói. De 1929 a 1931, trabalhou como ferroviário na Estrada de Ferro Leopoldina.
Ele ingressou no PCB em 1928, tornando-se membro da Liga Operária da Construção Civil de Niterói. Por sua atuação política em defesa dos interesses das classes trabalhadoras, terminou sendo preso em 1931.
Posto em liberdade, voltou a atuar no PCB e no movimento operário. Chegou a ficar gravemente enfermo em função dos maus-tratos e torturas que sofreu devido às sucessivas prisões.
Após restabelecer-se, foi designado pelo PCB para organizar o partido em Juiz de Fora e Belo Horizonte, nos anos de 1935 e 1936. Entre 1936 e 1937, ficou preso na Casa de Correção e no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro.
Libertado, retornou a Minas Gerais, a fim de retomar sua militância no PCB, pelo que foi novamente preso durante oito meses. Solto mais uma vez, atuou clandestinamente no PCB durante o Estado Novo. Em razão disso, ficou detido no período entre 1940 e 1943.
Depois de sair da prisão, participou da Conferência da Mantiqueira, tendo sido eleito, durante o encontro, membro do Diretório Nacional do PCB e responsável pelo trabalho do Partido na Região Norte do país.
No contexto da redemocratização, tornou-se secretário político do Comitê Executivo do PCB no estado do Rio de Janeiro e membro do Comitê Central do Partido Comunista. Eleito deputado constituinte pelo PCB, nas eleições de dezembro de 1945, Claudino tornou-se o único parlamentar negro na Assembleia Constituinte.
Diferenciando-se das demais em função, principalmente da origem social de seus integrantes, a bancada comunista trazia elementos e práticas de encaminhamento político, aos quais os arranjos parlamentares de elites estavam pouco ou nada afeitos.
Esse tipo de desconforto aparecia, ainda que sutilmente, dentro e fora da Assembleia.
O jornal O Estado de São Paulo de 14/02/1946, por exemplo, usava os seguintes termos para qualificar o discurso do deputado Claudino José da Silva:
O orador ocupou a tribuna por tempo excessivo, e lia imperturbavelmente, atrapalhava-se na leitura, cometia silabadas a todo instante. (...)
O orador comunista, um autêntico popular e crioulo, cumpriu o seu dever partidário até o fim, apesar dos tropeços na leitura, cujo texto rebarbativo, mesmo para letrados, tal o jargão em que estava escrito.
Claudino concentrou sua atuação parlamentar na denúncia da prática de preconceitos raciais no Brasil e na defesa dos ex-combatentes da FEB em situação de dificuldade econômica, após o término da guerra.
Participou dos debates sobre o problema da discriminação racial, declarando apoio à emenda de Hamilton Nogueira (UDN/DF), que declarava a igualdade de todos perante a lei sem distinção de raça, punindo a prática do racismo em território nacional. Manifestou-se favorável à realização imediata de uma reforma agrária no país e à extinção das polícias políticas remanescentes do Estado Novo.
Em janeiro de 1948, teve o seu mandato de deputado cassado, juntamente com os demais parlamentares comunistas, vitimados pela onda repressiva resultante da Guerra Fria e pelo terrorismo de Estado do governo do general Eurico Gaspar Dutra.
Luiz Carlos Prestes, ao regressar do exílio em 1979, procurou seus velhos companheiros do PCB. Entre eles, Claudino José da Silva que velho e doente, vivia no estado do Rio, conseguindo sua internação na Casa São Luiz, instituição dedicada a atender a chamada velhice desamparada. Faleceu em fevereiro de 1985, aos 82 anos de idade.
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Texto extraído de AMORJ. Partido Comunista Brasileiro: da insurreição armada à união nacional (1935-1947). Rio de Janeiro: AMORJ/UFRJ, 2009.


HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 6

O “deus” que os homens criaram para dominar

Especial para o Humanitas

Thomas Henrique de Toledo Stella é professor e historiador pela FFLCH/USP. Mora em São Paulo/SP

Não gosto da palavra Deus por que ela é incapaz de expressar o que entendo por espiritual. Ao contrário, este substantivo carrega o peso de estar associado a um personagem ficcional, psicologicamente transtornado e que ao servir como exemplo à humanidade acaba por corrompê-la no que ela tem de mais natural. Pior, por ser supostamente único, este Deus abre caminho para que os maiores crimes sejam cometidos em seu nome por aqueles que dizem serem seus representantes.
Deus, no sentido que a humanidade lhe atribuiu na tradição judaico-cristã, seria um Ser revestido de personalidade que formulou um código de conduta (10 mandamentos) e que pune severamente aqueles que não o obedecem. Este Deus é ciumento porque seu primeiro mandamento exige que não se cultue outro Deus que não seja ele.
Também é impiedoso com aqueles que ousam contrariá-lo: destrói cidades, transforma pessoas em estátuas de sal e chega a obrigar um fiel a matar o próprio filho para provar que o ama. Exige que seus seguidores façam guerras para acabar com o culto a outros Deuses e que sejam cortadas cabeças de homens, mulheres ou crianças que adorem bezerros de ouro.
Esse Deus apresenta, portanto, traços de personalidade de uma pessoa carente, psicótica e fraca, o que o faz com que o tempo todo precise se auto-afirmar como todo poderoso. Apesar disso, seus criadores dizem que ele é um Deus de amor. Mas, além de seus mandamentos, ele ordenou que se criasse um conjunto de normas morais rígidas, chamado Levíticos e Deuteronômio, que proíbe coisas como comer frutos do mar, fazer a barba, trabalhar aos sábados e, pasmem: obriga seus fiéis a negar o desprezível desejo sexual e o prazer, pois são ações supostamente sujas e imorais.
Assim, todos que nascem de uma relação sexual são impuros e corrompidos por um tal pecado original. A única exceção é aquele que é descrito como o seu único filho que, diferente do resto da humanidade, nasceu por um milagre do Espírito Santo e não por algo tão pecaminoso e aberrante como o sexo. Este curioso personagem chamado Deus é solteiro e ao contrário de outros Deuses não possui uma Deusa como consorte.
Além disto, este super-herói machão relega às mulheres a uma condição de submissão, pede que seus profetas, santos e pregadores execrem a mulher como símbolo da tentação e da queda, pois foi por causa da mulher que o homem se corrompeu e comeu do fruto do conhecimento (melhor seria permanecer no paraíso da ignorância do que descobrir que estava nu, na vergonhosa e condenável condição de nudez).
Deus exige, portanto, que nenhum direito seja dado às mulheres e que caso cometam adultério sejam apedrejadas até a morte. A única mulher que Deus confere uma pequena importância sagrada é castrada de seu direito sexual e relegada eternamente à condição de virgem.
Deus é bom, dizem seus criadores. Mas um de seus anjos se rebelou contra a infinita bondade do pai e construiu um poderoso império chamado inferno, que fica num lugar quente e imundo.
Deste modo, o sentido da vida humana se resume a não cair em tentação para que depois da morte não seja condenado a permanecer eternamente abrasando neste temível antro, aonde ardem as almas das pessoas mais horrendas que habitaram o planeta.
Para se evitar isto, Deus pede que seus fiéis rezem para livrá-los de todo o mal, amém.
Como seria então o paraíso? Se o paraíso é a negação do que é condenável, não deve existir prazer porque o prazer é pecado.
Não deve existir sexo porque o sexo é sujo. Não deve existir mulher por que a mulher é impura. Não deve existir natureza porque a Terra é um lugar desprezível.
Também não deve existir alegria porque a alegria desvia o homem de seu objetivo principal: o trabalho, ao qual os humanos foram condenados após sua expulsão do paraíso.
Não por outro motivo que tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, está afirmado repetidamente o consentimento com a escravidão e a exploração do trabalho.
Mas para que serve o trabalho? Quem trabalha não tem tempo de pensar, estudar e refletir, até porque pensar leva a questionar dogmas e dogmas jamais podem ser questionados. Quem questiona ameaça a ordem social, política e religiosa dominante e assim desafia poderes estabelecidos.
Se esta pessoa exerce livremente sua sexualidade, ela é uma pessoa que conhece a si mesma e respeita seus desejos, ainda mais se faz isto sem sentimento de culpa por padrões externos de moralidade. Se ainda não tiver medo do inferno, instituição alguma será capaz de prender esta pessoa em sua teia de dominações.
Portanto, a estes não há nada que lhes reste que não seja a tortura das masmorras, seguida da fogueira do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição.
E, assim, um personagem chamado Deus, Pai, Todo Poderoso, Onipotente, Onipresente e Onisciente, mostra-se não ser tão poderoso como ensinado nos catecismos, pois ele precisa que humanos matem humanos para provar que ele é único.
Por seu santo nome, todo o tipo de guerra, saque, massacre e destruição pode ser justificado, pois essa é a vontade suprema de Deus e se uma instituição o representa, esta é a sua missão divina.
E foi assim que o homem criou Deus à sua imagem e semelhança.
Eis o verdadeiro mistério da fé!

HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 5

Fundamentalismo evangélico ameaça a democracia
 Reverendo Carlos Eduardo Calvani - Igreja Anglicana do Brasil
Campo Grande/MS
Texto extraído de http//noticias.gospelprime.com.br

Campo Grande/MS não merecia, na comemoração dos seus 114 anos de emancipação, o desprazer de assistir a tal MARCHA PARA JESUS organizada por pastores-políticos e políticos-pastores, reunindo cerca de 40 mil fanáticos para ouvir o “mais do mesmo” – as bobagens retrógradas de Silas Malafaia, Robson Rodovalho e outros.
O movimento evangélico hoje é um dos maiores perigos para a sociedade brasileira e o Estado Laico por seu potencial fundamentalista.
Malafaia, Feliciano, Rodovalho, Macedo, R. R. Soares e outros nomes menores que estão despontando (e outros que ainda despontarão) são a pior espécie de fanatismo religioso possível. A única diferença entre esse grupo e o fundamentalismo islâmico está nos referenciais religiosos nos quais se apoiam.
É certo que a grande maioria dos muçulmanos não é fundamentalista; mas os poucos que alcançam o poder cometem barbaridades em nome de sua fé. O fundamentalismo evangélico caminha pelo mesmo rumo. Alguém em sã consciência e com um mínimo de instrução ou sensibilidade consegue acreditar neles e em seus discursos?
Somente os analfabetos funcionais, que pouco leem (aliás, sequer a Bíblia leem, ou leem com olhares medievais) os apoiam. Não nos iludamos. Os evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira. Os evangélicos têm um projeto político muito perigoso para o Brasil.
Utilizam as Escrituras Sagradas do modo como lhes convém, para interferir na Comissão de Direitos Humanos, para propor ou alterar leis e infringir descaradamente as cláusulas pétreas da Constituição Federal.
Eles se infiltram nos partidos e conseguem ser eleitos para cargos no executivo e no legislativo.
Mas eles não têm fidelidade partidária nem princípios sociais claros.
São mesquinhos e egoístas. Seus princípios são os da promiscuidade “igreja-estado”.
A bancada evangélica é, comprovadamente, a mais inútil do Congresso Nacional.
No fundo, seu projeto é acabar com as manifestações religiosas com as quais não compartilham, sejam elas católico-romanas, espíritas, do candomblé, umbanda ou de qualquer outra religião que não a deles.
Desejam interferir na orientação sexual privada das pessoas EM NOME DE DEUS.
Fazem acusações levianas de que o movimento LGBT deseja acabar com as famílias.
Querem dominar o Ensino Religioso nas Escolas Públicas e, se conseguirem tomar o poder não hesitarão em se infiltrar nas forças armadas utilizando o potencial bélico brasileiro para seus objetivos.
Sim, matarão se for preciso, invocando textos bíblicos, o “Deus guerreiro” do Antigo Testamento e seus exércitos sanguinários. Sim, destruirão o “Cristo Redentor” e qualquer monumento de outra religião. Sim, se tiverem plenos poderes proibirão o carnaval, festas juninas, romarias marianas, terreiros de candomblé e exigirão conversão forçada a seu modelo de vida e à sua religião.
O fundamentalismo que os inflama não terá qualquer restrição em proibir shows populares, biquínis nas praias e utilizarão armas químicas para fazer valer seus ideais.
Viveremos um TALIBÃ EVANGÉLICO, com homens com o mesmo olhar raivoso de Malafaia, e gays internados em campos de concentração para que sejam curados. Alguns dirão que estou exagerando. Porém, Malafaia já disse ao microfone: “Nós declaramos que vamos tomar posse dos meios de comunicação, das redes de internet, do processo político, nós vamos fazer a diferença, vamos influenciar o Brasil com o evangelho de Jesus”
Se permitirmos que seu projeto vá em frente, PREPAREM AS BURCAS. Nosso futuro será sombrio!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 4

Holanda transforma igrejas em livrarias, cafés e casas de shows

Carmén Vásquez- Lisboa - Portugal
Especial para o HUMANITAS

Nos últimos anos aumentou bastante o número de ateus na Holanda. Desde a década de 1970 que mais de mil igrejas fecharam as portas nesse país. Muitas delas foram demolidas e outras readaptadas para receber novos usos associados ao lazer e à cultura.
As igrejas e as catedrais da Europa são construções magníficas, cheias de detalhes e histórias. São verdadeiras cápsulas do tempo, trazendo ao mundo de hoje um pouco da época da Idade Média. Um dos exemplos deste fenômeno é a livraria Selexyz, construída em plena igreja de Maastricht, na Holanda, apontada pelo jornal britânico The Guardian como a mais bonita do mundo.
O Paradiso é outra igreja do século XIX localizada em Amsterdã que foi transformada numa casa de espetáculos, sendo hoje um dos locais de passagem indispensáveis de centenas de artistas por ano. Na capital holandesa, o antigo Orfanato Saint Elisabeth foi transformado num hotel quatro estrelas, o Hotel Arena. Além disso, a capela é hoje uma casa noturna.
 A residência Church of Living (Igreja para viver, tradução em português), em Utrecht, também na Holanda - antiga Igreja de St. Jacob - é mais um exemplo das várias igrejas que, por ausência de fiéis e elevados custos de manutenção foram compradas pela iniciativa privada. Também em Utrecht uma antiga igreja deu lugar ao Café Olivier.
Recente estudo baseado em dados de recenseamento e projeções de nove países ricos (Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça), constatou que dentro de alguns anos a religião deverá desaparecer nesses países.
Analisando censos colhidos desde o século XIX, o estudo identificou uma tendência de aumento no número de pessoas que afirmam não ter religião na Holanda e nas outras nações aqui marcadas.
 O estudo, divulgado num encontro da American Physical Society, em Dallas (EUA) indica que o número de pessoas com religião vai praticamente deixar de existir nesses países.
Em muitas democracias seculares modernas, há uma crescente tendência de pessoas que se identificam como não tendo uma religião; na Holanda, o índice foi de 40%, afirmou à BBC Richard Wiener, da Research Corporation for Science Advancement, do departamento de física da Universidade do Arizona.
O estudo projetou que, na Holanda, até 2050, 70% da população não vai ter nenhuma religião. Por enquanto existem nesse país 28% de católicos, 19% de protestantes, 5% de muçulmanos e 4% de outras religiões.
Lembro aqui que nem todos os crentes, que ainda são maioria no país costumam frequentar igrejas, templos ou locais de culto para praticar seus respectivos dogmas.
Este é e será o destino inexorável dos templos e igrejas na medida em que o povo vai se tornando mais educado e esclarecido. 
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Nota do editor - Infelizmente ocorre o contrário no Brasil! Em nosso país toda casa comercial e todo cinema quando fecham são transformados em algum tipo de templo evangélico inútil e desnecessário para o crescimento intelectual e para a cultura brasileira. O Brasil ao seguir este caminho, dificilmente evoluirá como a Holanda e demais países ricos, continuando a ser um país subdesenvolvido e carola. Um dos meios para iniciar essa evolução seria o fim da isenção tributária para essas igrejas, bem como acabar com as fábricas de dinheiro ilícito que elas abrigam.

HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 3

CARTAS DOS LEITORES
Um jornal especial que dá gosto de ler. Maria do Carmo Oliveira – Salvador/BA
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A verdade que o HUMANITAS propaga vem do sangue pernambucano. João Marcus – Recife/PE
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Uma sugestão: cinema. Falem algo sobre filmes antigos. Maria Clara Arcanjo – Olinda/PE
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O HUMANITAS representa uma resistência em tempos em que muitos confundem o ser politicamente correto com o ser conveniente omisso. Perimar Moura – Ilhéus/BA
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Imprevisto
Rafael Rocha – Recife/PE
Do livro Meio a Meio/1981

Veio o amor como uma roupa nova
Que posta à prova
Viu-se maior que meu esqueleto

Veio o amor como um sapato novo
Que depois de calçado
Sobrava espaço a mais dedos

Enviei tudo para conserto às pressas
Às pressas, pois necessitava pôr-me
Em plenas vestes novas

Esqueci nessa prontidão
Que nunca fui sapateiro
E muito menos alfaiate
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O poema que não fiz
Valdeci Ferraz
Caruaru/PE

O poema que não fiz andou me cutucando,
Ameaçou paralisar o tempo
Para que as flores não brotassem,
Espalhou tachinhas no leito
Para atiçar um sentimento adormecido.
Pela manhã tingiu o céu com uma cor cinzenta
E inspirou um canário sonolento.

O poema que não fiz se fez surdo
Para não me deixar ouvir um pranto,
E envolveu minhas lembranças
Com uma fita de saudade,
Na intenção de provocar meu verso. 
Como um menino mau 
Escondeu todas as minhas rimas
Por fim sentou-se à janela de minh’alma
E se banhou na primeira lágrima que surgiu
Ouvi a sua risada rasgar a noite
E vi algumas mulheres na sua companhia
Cada uma levando consigo pedaços do meu tempo.
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Ilusões passadas
Antonio Carlos Gomes
Guarujá/SP

Ouço o mar
Ao longe
Cantando na enseada
Murmúrio
Lânguido
Dor do adeus
À amada.

Ouço o vento
Soprando
No nunca esquecer.
São poeiras de sonho
Jamais do viver.

Ouço a vida
Dançando,
É descompensada:
Sempre dança assim
Enfastiada
Nas isoladas
Ruas das madrugadas.
E tudo se perde
Em cinzas...
Ilusões passadas...
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“Construí amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, bati na porta da vida e disse: Não tenho medo de vivê-la”. Augusto Cury
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POETA DO MÊS DE NOVEMBRO

Micheliny Verunschk mora em São Paulo/SP. É poeta e escritora.
Escreveu Geografia Íntima do Deserto, O Observador e 
o Nada e A Cartografia da Noite.

HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PÁGINA 2

EDITORIAL
Políticos não são deuses

A quem pertence o poder político em uma democracia? Simples: o povo é o dono desse poder, cujo objetivo é manter a ordem, assegurar a defesa e o bem-estar da sociedade como um todo, tendo sempre em vista o bem público.
Porém, devido a uma cultura ainda impregnada de colonialismo, o que vemos em nosso país é algo completamente diferente.
O povo brasileiro vota e coloca gente despreparada no poder. Despreparada no sentido de defender os interesses da população, mas MUITO BEM PREPARADA para defender os seus próprios interesses.
Nosso povo trata os políticos como se eles fossem deuses intocáveis. O povo deixa que os políticos façam o que bem entenderem. O povo paga a vida particular de cada político. Fornece casa, comida, roupa lavada. Paga aluguel em ricas moradias, salários elevados, passagens aéreas. Ou seja, o povo brasileiro fornece mordomia total a seus políticos como se eles estivessem no Olimpo.
A verdade é cruel: a maioria dos políticos não sabe exercer o poder. Essa maioria, quando alcança o poder se apequena devido à necessidade neurótica do seu projeto pessoal: o político quer apenas ser servido e idolatrado pela sociedade. Deveria ser o contrário. Infelizmente não é.
Um grande líder político deve e tem de se preocupar com o bem-estar social, mas o que vemos no Brasil é a outra face da moeda. Salvo pouquíssimas exceções, a maioria dos que se dizem líderes se preocupa apenas com o próprio bem-estar, seus elevados salários e a permanência perene no poder.
O povo é manipulável. Aqui no Brasil a falta de educação política faz o brasileiro aceitar a mentira, deixando que alguns falsos líderes subvertam a verdade. Assim, nossos governantes fazem de tudo, desde que esse tudo esteja a serviço dos seus interesses.
Isso precisa acabar. Os políticos têm de entender que não são deuses. Nenhum político pode ser um grande líder se não aprender, primeiro, a ser líder de sua consciência.
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NOTAS VARIADAS

O cristianismo nos afirma que há um homem invisível, que vive no céu e vigia tudo o que fazemos o tempo todo. O homem invisível tem uma lista de 10 coisas que ele não quer que a gente faça. Se você fizer qualquer uma dessas coisas, o homem invisível tem um lugar especial, cheio de fogo, fumaça, sofrimento, tortura e angústia, para onde ele vai lhe mandar viver, queimando, sofrendo, sufocando, gritando e chorando para todo o sempre. Mas ele ama você! (George Carlin)
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Deus disse aos judeus que matassem todos os hereges, todos os que adorassem outro deus. Então ele enviou seu filho ao mundo para pregar uma nova religião. Se os judeus o mataram, eles não fizeram mais do que cumprir seu mandamento e Deus não pode se queixar. (Robert Green Ingersoll)
***
Não, eu não acredito em Deus e, depois de viver, pretendo ter um longo e feliz descanso debaixo da terra. (Katharine Hepburn)
***
É melhor ser escravo no Brasil e salvar sua alma que viver livre na África e perdê-la. (Padre Antônio Vieira)
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Hipátia (370-415 DC) era uma cientista, matemática, astrônoma, líder da escola de filosofia neoplatônica e diretora da Biblioteca de Alexandria. Cirilo, o arcebispo de Alexandria, a odiava por ela ser um símbolo da ciência e da cultura que para a igreja primitiva, representavam o paganismo. Ela continuou seu trabalho apesar das ameaças até que, no ano de 415, foi cercada pelos monges e paroquianos de Cirilo, despida e esfolada até a morte com cacos de cerâmica. Seus restos foram queimados e suas obras destruídas. E Cirilo? Ah, ele foi canonizado! (Carl Sagan)
***
Deus é um ser mágico que veio do nada, criou o universo e tortura eternamente aqueles que não acreditam nele, porque os ama. (Steve Knight)
***
Render-se à ignorância e chamá-la de deus sempre foi algo prematuro, e continua sendo hoje. (Isaac Asimov)
***
Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força. (Hipátia de Alexandria)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

HUMANITAS Nº 41 – NOVEMBRO DE 2015 – PRIMEIRA PÁGINA

O reverendo Carlos Calvani, da Igreja
Anglicana, diz que os fundamentalistas
evangélicos são perigosos
para a democracia na página 5
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Na página 6 o professor e historiador
Thomas Henrique de Toledo Stella
fala sobre o deus criado
pelos homens para dominar
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O REFÚGIO POÉTICO na página 3
traz a poesia de Micheliny Verunsck,
Rafael Rocha, Valdeci Ferraz
e Antonio Carlos Gomes