quarta-feira, 1 de novembro de 2017

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 8



UM ARTISTA ARGENTINO QUE FEZ DA BAHIA SUA PÁTRIA

Nascido em 7 de fevereiro de 1911, na pequena cidade de Lanús, subúrbio de Buenos Aires, o artista, pintor, escultor, pesquisador e historiador Hector Julio Páride Bernabó, mais conhecido como Carybé, veio morar no Brasil em 1919, onde completou os estudos secundários no Rio de Janeiro e estudou na Escola Nacional de Belas Artes.
Até meados dos anos 1940, Carybé viveu em vários países, mas sempre retornando ao Brasil. Neste período, trabalhou como ilustrador de obras literárias e traduziu o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, para o espanhol. Em 1943, fez sua primeira exposição individual e ilustrou o livro "Macumba, Relatos de la Tierra Verde", de Bernardo Kordan. Em 1950 foi morar definitivamente em Salvador, na Bahia, onde, através de uma carta de recomendação do escritor Rubem Braga, foi contratado para fazer murais em prédios e obras públicas.
Durante os quase 50 anos em que viveu na Bahia, Carybé desenvolveu profunda relação com a cultura e com os artistas de Salvador. As manifestações culturais locais, como o candomblé, a capoeira e o samba de roda, passaram a marcar a sua obra. Em virtude de seus trabalhos voltados para a cultura afro-brasileira, enfocando seus ritos e orixás, ele conquistou um importante título de honra do Candomblé, o obá de Xangô.
Frequentador do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, Carybé morreu aos 86 anos, no dia 1° de outubro de 1997, em Salvador, durante uma cerimônia no próprio terreiro. O artista deixou como legado mais de cinco mil trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços.
“Um elemento principal na pintura de Carybé é o movimento, o ritmo, a surpresa, que ele quer que conviva com uma exigência do seu espírito: a do nada deixado por fazer, a do nada ambíguo, pouco reconhecível, da definição do pormenor, como a unir a serenidade da obra clássica à multiplicidade de sugestões e o descompromisso do esboço” (FURRER, Bruno. Carybé. Salvador: Fundação Emílio Odebrecht, 1989).
Carybé fez desenhos em inúmeras obras de Jorge Amado, além de ilustrar trabalhos para livros de outros autores de grande expressão, como Mário de Andrade, Gabriel García Márquez e Pierre Verger. O artista também escreveu livros como "Olha o Boi" e foi co-autor da obra "Bahia, Boa Terra Bahia", com Jorge Amado. Em 1981, após 30 anos de pesquisa, publicou a Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia.
(Texto de Rafael Rocha)

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 7

RACISMO NO BRASIL: UMA ANÁLISE IMPARCIAL
Ana Leandro - colaboradora do HUMANITAS - é escritora e jornalista. Atua em Belo Horizonte/MG

Dificilmente uma pessoa de pele branca admitirá claramente que é racista. E muitas, sendo de descendência negra, mas tendo nascido de cor branca, preferem não demonstrar essa origem. 
Isto por si só já demonstra que a questão ainda tem séria interferência não apenas social, mas econômica e até mesmo profissional.
São infindáveis os contos e novelas de ficção ou de conteúdo histórico, que se alinham nesse enredo. Sempre, naturalmente, com o objetivo positivista do autor, de mostrar que valores humanos não estão na cor, como de fato não estão.
Quanto ao fato da discriminação permanecer velada, isto se deve principalmente a uma questão legal: a “Constituição de 1988 estabelece que o racismo é crime inafiançável e imprescritível”.
Mas ao que parece leis mudam “comportamentos e não sentimentos”.
Muitas pessoas não dizem abertamente a um negro que o considera de uma raça inferior, mas o trata como tal. De maneira “velada”, de forma a não se expor às penas da lei.
É interessante relembrar uma história ocorrida em uma escola, onde os colegas faziam ostensivo “bullying” a uma menina de cor negra. Ela era ostensivamente rejeitada na participação de grupos e brincadeiras.
A professora, percebendo o isolamento da menina, chamou os alunos e perguntou qual a razão disso. Um dos garotos, o mais agressivo, disse clararamente: “ora professora, veja só a cor dela!”
Não vamos aqui nos alongar nos termos da pedagogia adotada pela professora. Mas ficou bem claro que ela salientou ser terminantemente proibido fazer menção à cor negra da aluna. Ao que o aluno retrucou com ironia: “Então agora  a chamaremos de  Branca de Neve, está bem?” A menina reagiu com firmeza e altivez: “Não, eu sei que sou preta e não branca! Mas quero que gostem de mim assim como sou”.
Parece que a reação firme da menina valeu mais do que toda a lição pregada pela professora, pois a partir daí aos poucos muitos colegas passaram a tratá-la melhor e a convidá-la para participar em jogos e brincadeiras, chegando a casos de sólidas amizades, por se mostrar inteligente e receptiva.
E este âmbito foi aumentando, incluindo inclusive colegas do sexo masculino, que eram mais resistentes. É claro que o episódio não resolve a questão nacional, porque o respeito ao próximo qualquer que seja sua raça, é principio ético e demonstra profundidade no caráter humano.
Mas também devemos  assumir que as pessoas na maioria são muito mais ligadas a questões de aparência, do que de conteúdo de valor do próximo. O que demonstra que há nesse comportamento discriminatório, vários fatores que influem.
O racismo tem origem nas questões de nossa própria colonização. Começou no período colonial, quando os portugueses trouxeram os primeiros negros, vindos principalmente da região onde atualmente se localizam a Nigéria e Angola.
Os negros foram trazidos ao Brasil para servirem de escravos nos engenhos de cana de acúcar, devido às dificuldades da escravização dos indígenas, os primeiros habitantes brasileiros do qual se tem relato. 
Registre-se, além de tudo, o fator inevitável da motivação financeira, pois o tráfico negreiro foi a maior fonte de renda do período colonial.
Ora, se na casa grande, no “palácio residencial” estavam os brancos, e lá fora ao rés do chão negros eram forçados a  trabalhos e cruelmente castigados quando não rendiam produção desejada, era natural que a comunidade saída desse cenário, perseverasse na ideia de que eram superiores, preconceito que se estendeu mesmo por séculos e séculos depois.
A própria Igreja Católica participou desse processso, pois sabe-se que era proibido ao negro entrar em templos efetivamente construídos para os brancos. Estes sim, senhores das terras e das riquezas e econômicamente capazes de contribuir com a expansão da própria igreja e da religião.

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 6

O inextricável passado e o futuro
Manfred Grellmann é um autodidata e colaborador do HUMANITAS. Mora em Camaragibe/PE

A queda de impérios (da Grécia, Roma e outros) tem em comum o mesmo motivo: “o dinheiro”. Mais precisamente os “juros!” A criminosa “usura!” Os juros levam à concentração de renda, endividamento, escravidão econômica, decadência, jogos e luxúria sem limite, descontentamento popular, guerras civis e derrocada.
Em 1887, o chanceler alemão Leopold von Bismarck quis saber por que muitos impérios acabaram em ruínas. Para encontrar a explicação, ele encomendou um estudo a Gustav Ruhland, professor de economia política da Universidade de Freiburg.
Com o aporte necessário, Ruhland viajou pelo mundo, pesquisando e estudando as economias através da história. Em 1890, retornou de sua longa viagem por vários países, porém Bismark não era mais chanceler. Assim, o estudo não tinha mais a finalidade a que se propunha e acabou se transformando em livro.
O aspecto relevante do livro é que em todas as decadências de impérios, o mecanismo de destruição era sempre o mesmo. Todas as culturas eram baseadas no dinheiro e, como não podia ser diferente, a escravatura aos juros provocava uma constelação de degradantes consequências.
Tal como hoje, todo dinheiro estava atrelado a juros. Quem possuía mais dinheiro tinha maior poder, o que lhe permitia fazer toda sorte de falcatruas, roubos e influências nas esferas políticas e governamentais.
Com a evolução desse sistema, os ricos ficavam cada vez mais ricos. Processo que depois evoluía em sequestro de bens, saques, roubos, corrupção e bandidagem. Isso ocorre em todo sistema monetário.
Com o tempo, esse processo concentrou a riqueza nas mãos de uns poucos e em governos dominados pela restrita classe rica.
Agricultores perdiam suas propriedades em favor da agiotagem. No ano de 104 antes da Era Comum, o tribuno romano Lucius Marcius Philippus, explicou que em Roma existiam apenas dois mil cidadãos que possuíam fortuna.
Enquanto nas distantes províncias conquistadas os agricultores nativos destruíam as tropas invasoras, em Roma, os ricos ocupavam o poder, acelerando a destruição do potencial agrícola da velha Roma.
Assim, o meio produtivo se utilizava cada vez mais de escravos, o que tornava o empreendimento particular inviável.
Na Roma Antiga, os empréstimos tinham como fiança o corpo do devedor. A insolvência o transformava em escravo.
Como o acúmulo do capital, turbinado pelos juros, crescia rapidamente, a população ficou incapaz de produzir alimentos.
O império, para controlar a massa pobre, passou a saquear as províncias para suprir Roma com recursos.
Esses saques exauriam as províncias, e obrigavam à busca de cereais em distâncias cada vez maiores, tornando o abastecimento incerto e entregue ao acaso.
A massa empobrecida, sem terras e trabalho, era entretida e controlada com jogos como as sangrentas lutas dos gladiadores.
O sangue dos espetáculos, os jogos abertos e o fornecimento de comida pelo império eram formas de conseguir o controle da massa empobrecida e esfomeada. Daí o dito: pão e circo”.
Já no século 100 antes da Era Comum, a massa humana pobre que pesava no erário romano, chegava ao número de 400 mil.
A cultura entrou em decadência. A classe rica se divertia conforme sua natureza depravada. Somente o dinheiro dava status social.
A indissolúvel instituição do casamento foi substituída pelo contrato dissolúvel, com um notável aumento da prostituição. Chantagem e corrupção, nepotismo e justiça comprada eram regras. Isso evitava que cidadãos sérios chegassem ao poder. O proletariado, vivendo na pobreza, não tinha como ganhar dinheiro. Os capitalistas multiplicavam sua fortuna produzida com mão de obra escrava.
No império romano, a cobrança de juros sobre juros produziu efeitos inacreditáveis. As dificuldades fizeram com que o então político e cônsul romano, Lúcio Cornélio Sula, no ano 84 antes da Era Comum, impusesse à Ásia Menor um elevado imposto subsidiado pelos capitalistas romanos. Isso obrigou as populações a vender casas, filhos e até mesmo os pais, para satisfazer a insaciável sede do capitalismo romano.
Por esse processo, a condução política caía nas mãos dos banqueiros. Guerras civis tornaram-se comuns. Nessas circunstâncias, a alegria de viver deixou marcas como poucos filhos e frequentes suicídios para escapar mais rápido de um mundo sem esperanças.
No final, o império foi vencido por germânicos mal armados. Verba para defesa o exército romano já não recebia há muito tempo. O ócio nas casernas, devido à falta de campanhas militares, resumidas em guardar fronteiras, acabou com a determinação guerreira dos soldados, deixando-os “enferrujados”.
A queda foi rápida.
A origem da decadência tem como causa o capitalismo através da usura. O desenvolvimento da miséria do império romano mostra a origem, na ascensão do cego poder do capital como força única. Quem pretendesse implementar reformas teria que desmontar o poder supremo do capital.
Gustav Ruhland definiu assim a decadência do império romano: “crescente endividamento, destruição da agricultura e despovoamento”.

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 5

Os filmes de terror através dos tempos...
E o que está por trás deles! (2)

O surto de fitas de monstros dos anos 50, quando dezenas de criaturas disformes e ameaçadoras povoaram os pesadelos dos espectadores, é uma consequência do impacto que teve sobre a humanidade a barbárie e a violência da 2ª Guerra Mundial.
Um mundo que supostamente caminharia a passos largos para o progresso e a civilização foi surpreendido pela regressão à selvageria em sua forma mais brutal.
O espanto e a perplexidade das pessoas precisavam ser expressos e expurgados de alguma maneira.
Daí o surgimento desses filmes em que os terrores primitivos irrompiam inopinadamente diante dos homens, corporificando-se nas figuras de seres pré-históricos e de animais que nos são temíveis ou repugnantes (insetos, polvos, aranhas etc), tornados gigantescos devido a qualquer incidente.
Na sua trajetória destrutiva, os monstros realizavam tudo aquilo que os espectadores mais temiam – e, morbidamente, desejavam –, para, afinal, serem exterminados e a ameaça afastada.
Por meio da morte de cada uma dessas criaturas, exorcizavam-se simbolicamente os receios de uma nova guerra.
Isto fica ainda mais claro nas películas japonesas, em que os monstros eram engendrados ou despertavam de uma milenar hibernação a partir, quase sempre, de explosões atômicas.
Os horrores reais de Hiroshima e Nagasaki, demasiadamente latentes na lembrança dos nipônicos, encontravam aí uma expressão atenuada –  pois, afinal, nenhum “Godzilla” maginário poderia causar terror remotamente equiparável ao dos artefatos nucleares.
Outra característica significativa é a apresentação dos monstros como descomunais, evocação óbvia da idade em que o mundo nos parece ameaçador e povoado de seres gigantescos e muito mais poderosos do que nós: a infância.

A ÚLTIMA CENTELHA DO TERROR CLÁSSICO

A partir de 1957, estendendo-se pelos anos 60, o terror clássico tem novo e derradeiro apogeu, com os estúdios britânicos Hammer e Amicus revivendo os velhos mitos das telas (“Drácula”, “Frankenstein”, o lobisomem, a múmia, “Dr. Jeckill/Mr. Hide”, o fantasma da ópera etc), sob a direção competente dos artesãos Terence Fisher, Freddie Francis, Roy Ward Baker e Jimmy Sangster, dentre outros.
Foi, também, a revelação dos dois últimos grandes atores referenciais do gênero: Peter Cushing e Christopher Lee.
Enquanto isto, nos EUA, o genial fabricante em série de “filmes B”, Roger Corman, transpunha em ritmo frenético para as telas os contos de Edgar Allan Poe, com elencos de veteranos ilustres (Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone, John Carradine, Ray Milland) e uma jovem promessa (Jack Nicholson).
Este  revival  terrorístico foi avaliado por alguns como uma reação à vida insípida e sedentária das metrópoles modernas e ao cipoal burocrático no qual o cidadão comum sente-se enredado e tolhido.
A complexidade das relações sociais em nossa época é tamanha que desperta no homem a nostalgia por desafios simples, inimigos concretos que se pudesse vencer numa luta corpo-a-corpo.
No cotidiano, trabalhamos em companhias das quais só conhecemos os escalões intermediários, enquanto a cúpula está longe, inatingível, como o senhor do castelo kafkiano.
Somos obrigados a cumprir decisões de que não participamos, nem sabemos como foram tomadas.
E tratamos com outras organizações impessoais, como bancos, imobiliárias, repartições públicas, universidades, das quais só conhecemos funcionários, mas jamais atingimos o  todo, o  cérebro.
Quando temos queixas a fazer, acabamos perdidos no labirinto das burocracias.
Se nos sentimos oprimidos ou logrados, dificilmente conseguimos identificar o que vai mal em nossas vidas.
Não seria mais fácil lidar com o “Mal”, um ente definido, poderoso, mas também vulnerável? Não seria preferível combater “Drácula” do que o demônio do vestibular, os ogros dos testes de admissão, o fantasma do desemprego, a esfinge das dificuldades de ascensão econômica e social?
Não seria mais simples queimar o laboratório do barão “Frankenstein” do que livrarmo-nos dos cientistas loucos do governo que nos impõem políticas econômicas monstruosas?
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Esta série especial de artigos sobre cinema, escrita pelo jornalista Celso Lungaretti, continuará no próximo número

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 4

Os filmes de terror através dos tempos...
E o que está por trás deles! (1)
Celso  Lungaretti é jornalista. Mora e  atua em São Paulo/SP

Invocado pelas novas gerações, o sobrenatural
se alastrou por vídeos e telas. Que sortilégios
o rejuvenesceram? Por que os possuídos e assombrados
passaram a ser os jovens? São enigmas que só desvendaremos 
se reconstituirmos suas trajetórias malignas

O sobrenatural, através dos tempos, sempre deu expressão a facetas da índole humana que não são admitidas pela sociedade e pela própria personalidade consciente do indivíduo.
Possessões demoníacas, por exemplo, eram a reação extrema contra a repressão sexual vigente à época em que as energias corporais tinham de ser, tanto quanto possível, poupadas para o árduo e exaustivo trabalho braçal. As proibições inculcadas desde cedo constituíam obstáculos de tal forma intransponíveis que, para ceder aos instintos, as mulheres precisavam criar fantasias em que se supunham vítimas de  “íncubos” (demônios tentadores).
A lenda do vampiro, que forneceu a Bram Stocker a matéria-prima para o clássico “Drácula”, é uma variante dessas crenças. Os caninos que crescem para invadir jugulares têm óbvias características fálicas, tanto que, inclusive, perpetua a espécie, ao contaminar outras pessoas com o vírus do vampirismo. Nos clássicos do gênero, por sinal, a simbologia é riquíssima.
A dualidade instintiva, os conflitos entre o eu aparente e os impulsos inconscientes (entre o ego e o id, na terminologia freudiana) constituem o motivo secreto do fascínio de “O Médico e o Monstro” e “O Retrato de Dorian Gray”, novelas em que eventos fortuitos acabam por revelar a personalidade real dos personagens, até então inibidas pelas convenções sociais.

GRANDE DEPRESSÃO X ESCAPISMO

O sentimento difuso de que a ciência estivesse causando danos irreparáveis à natureza e à humanidade explica o fascínio de “Frankenstein”, em que os cientistas são mostrados como fabricantes de monstros.
Na transição para o cinema, a carga erótica implícita em várias novelas de terror foi atenuada. Afinal, dificilmente o rançoso moralismo dominante em Hollywood permitiria uma expressão mais ousada do lesbianismo latente no clássico “Carmilla”, de Sheridan Le Fannu.
E a penetração dos caninos de “Drácula” nos alvos pescoços das heroínas era encoberta pela capa do vampiro, que nesse momento estratégico erguia o braço e ocultava a cena dos espectadores.
Apesar disso, a imagem filmada conseguia sugerir muito e o clássico “Drácula” (1932), de Ted Browing, deveu grande parte do seu impacto à perturbadora aura sensual do personagem interpretado por Bela Lugosi.
E uma das principais criações do próprio cinema (não da literatura) –“King Kong” (1933), de Ernest B. Schoedaksack e Merian C. Cooper – foi decifrado por alguns analistas como uma gigantesca idealização da volúpia que fervia no corpo daquela mocinha tão pura e ingênua protagonizada por Fay Wray.
O apogeu do terror na década de 1930, obviamente, tem tudo a ver com a grande depressão estadunidense. O cinema assume nessa época características eminentemente escapistas, levando os espectadores, em voos de imaginação, para longe de uma realidade insuportável, ao mesmo tempo em que fornece fantasias compensatórias.
Assim, o homem comum na plateia se identificava com o herói que derrotava lobisomens, vampiros e múmias, e isto servia de alento para a batalha que ele próprio travava contra o desemprego e a miséria.
Ademais, segundo a dialética dos instintos proposta por Freud, a repressão de Eros leva a balança a pender para Thanatos. As dificuldades materiais e consequente prostração acarretam quase sempre esfriamento da libido e, como decorrência disso, o indivíduo se vê impregnado de morte, que se volta contra ele na forma de melancolia ou é descarregada para o exterior por meio da agressividade.
Assim, durante a depressão, as fitas de terror cumpriam exatamente o papel de permitir a projeção (para a tela) e a catarse do instinto de morte que as pessoas carregavam dentro de si.
A morte aparecia como ameaça aterrorizante, colhia vítimas aqui e ali, mas acabava derrotada. Aos espectadores restava a sensação de terem estado (magicamente) próximos do perigo, mas escapado.

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 3

REFÚGIO POÉTICO – CARTAS DOS LEITORES – TESTE DE XADREZ

POETA DO MÊS

Sosígenes Costa - Poeta brasileiro, nascido em Belmonte/BA, a 11 de novembro de 1901. Faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 5 de novembro de 1968. Estreou na imprensa por volta de 1928, em Ilhéus/BA, como colaborador do jornal Diário da Tarde. No mesmo ano tornou-se membro da Academia dos Rebeldes, juntamente com Pinheiro Viegas, Jorge Amado, Edison Carneiro e Dias da Costa. Foi contemporâneo de poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Henriqueta Lisboa e Cecília Meireles, trazendo algo muito seu à poesia da geração.
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CARTAS DOS LEITORES

Ótimos artigos e ótimas poesias. Este jornal humanista de pequeno só tem o formato. Adoro lê-lo. Hortência Prado de Almeida – João Pessoa/PB
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O HUMANITAS é ótimo! Sandra Regina – Campo Grande/MS
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Gosto demais do Humanitas. Seja impresso ou aqui na internet sempre estarei a ler as matérias especiais deste jornal. Carlos Gonzaga de Albuquerque – São Paulo/SP
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Parabéns ao jornalista Rafael Rocha bem como a todos os demais colaboradores por este magnífico trabalho chamado HUMANITAS.  Luiz Gondim de Albuquerque – Brasília/DF
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O HUMANITAS nos proporciona o deleite pela leitura, através de seus temas sociais, poéticos, históricos e atuais. Maria Isabel Soares – Recife/PE
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A coragem de ser faz o ser.  Quem não tem coragem de ser verdadeiro nem sequer deve existir. Adoro o HUMANITAS. Karla Spinelli de Oliveira Lima – Olinda/PE
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Um jornal muito bem editado. Parabéns por mais um ano. Luiz Antônio Pereira – Rio de Janeiro/RJ
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Sonetilho de verão
Paulo Henriques Britto
Rio de Janeiro/RJ

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
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Clube dos corações solitários
Ricardo Azevedo
São Paulo/SP

O clube dos corações solitários
Começa quando já deu meia-noite
No corpo de um passageiro da vida
Que busca um sonho no céu da viagem

O clube dos corações solitários
É longe e fica na próxima esquina
É doce como se fosse a esperança
Que vive com quem viaja sozinho

No clube dos corações solitários
É sócio quem possuir uma marca
Vermelha do lado esquerdo do peito
Na forma de um coração tatuado

HUMANITAS EDIÇÃO Nº 65 – NOVEMBRO 2017 – PÁGINA 2

EDITORIAL


Anos de chumbo

A mais duradoura ditadura da história da república brasileira foi instalada no dia 1º de abril de 1964, através de um golpe de estado igual a tantos que ocorreram na América Latina, sob o patrocínio dos capitalistas ianques.
Foi a mais brutal ditadura instalada no país. O autoritarismo militar, apoiado por uma parcela da sociedade civil, deu lugar à supressão dos direitos do cidadão, à censura, perseguições, torturas, prisões, desaparecimentos e mortes. Felizmente, quanto mais forte se tornou o autoritarismo, maior foi a resistência.
Hoje, passados mais de 50 anos daquela época fatídica ainda existem pessoas que aplaudem e apoiam os atos desumanos e radicais, endeusando os violadores dos direitos da raça humana entre os anos de 1964 e 1985.
Os “anos de chumbo” permanecem vivos nas memórias dos sobreviventes que buscam repassar a verdade dessa época aos jovens de hoje, mostrando os sofrimentos e as dores de uma geração. Geração que lutou com denodo pelo retorno do estado de direito ao Brasil, e que foi golpeada com a morte e desaparecimento de muitos dos seus líderes.
Hoje, em pleno Século XXI, com avanços tecnológicos diários, ainda vemos políticos e pessoas públicas, querendo o retorno de um “embuste” para usufruir do poder e dominar melhor o pensamento humano.
Um governante ilegítimo foi alçado ao poder através de um golpe de estado judicial/parlamentar/midiático, como se querendo que a terra de nossos ancestrais continue a ser uma terra perdida cheia de almas torturadas.
Lamentável que nosso povo ainda não tenha subjugado as “feras fascistas” e que muitas pessoas ainda hoje aplaudam muitas dessas “feras” como “salvadoras da pátria”.
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Tédio

Araken Vaz Galvão – Colaborador do Humanitas – Valença/BA

Cansado, mudou de posição. O peso do seu corpo, que estava apoiado sobre o braço esquerdo, foi passado para o direito.
Sabia que estava só, mas isso não era motivo para preocupação, pois era inerente à sua condição e, ultimamente não contara com outra companhia do que a da solidão. O tédio que sentia, talvez fosse dos anos.
Estava velho. A sua idade não era medida por séculos, mas sentida por milênios.
Sabia que nem sempre era bem visto por seu próprio rebanho, muitos o julgavam preguiçoso. Que trabalhara apenas seis dias e descansara no sétimo.
Melhor não houvesse trabalhado um dia sequer – dizia-se, em seus raros momentos de mau humor, pois era tido como muito tolerante e complacente.
Estado esse que era atribuído como coisas da velhice, embora aquele fosse um conceito que não deveria ser aplicado a ele.
Começou a sentir sono. Mesmo sabendo que estava só, que não era observado, disso tinha certeza, mesmo assim, olhou à direita e a esquerda.
Sabia que dentro de pouco estaria dormitando. Sua face nunca fora vista por nenhum homem. Ao pensar nessa solidão, sentiu o sono aumentar.
Quase cochilando, levou o dedo indicador ao nariz – melhor seria dizer: às fossas nasais – e retirou a secreção solidificada, em um gesto que, em outra pessoa, seria considerado anti-higiênico ou que feria os princípios da boa educação, mas que, em pessoa de sua grandeza, tornara-se a única tarefa que executava fazia séculos.
Isso feito, depois de preparar uma esfera, não muito perfeita, com o que extraíra do nariz, jogou-a à sua volta. Era um novo corpo a mais dos muitos que criara, atirado a esmo no espaço sem fim que a tudo envolvia sem nada a limitar.
 O sono começou a dominar seus pensamentos e ações. Em um daqueles globos que sistematicamente lançava as secreções sólidas do seu nariz, a esmo no espaço, seres comemoravam a passagem do tempo. Diziam: Feliz Ano Novo. Era uma saudação sem sentido, em seu universo o tempo não contava; só a eternidade.
Fechou os olhos e começou a cochilar de verdade, como o fazem todos os velhos. Em nenhum momento voltou a pensar naquilo que tinha criado. Talvez até sonhasse.
Quem disse que não poderia fazê-lo? Logo ele, criador de sonhos e pesadelos! Afinal, o que havia de errado em sonhar com os homens que o tinham esquecido?