sexta-feira, 31 de agosto de 2018

HUMANITAS Nº 75– SETEMBRO DE 2018 – PÁGINA 4

NÃO PENSAMOS COMO NAÇÃO
Sérgio Alves é professor. Atua na cidade do Recife/PE

Sempre que escrevo algum artigo, me sinto impelido e na vontade de provocar o caro leitor para reflexões e questionamentos inerentes ao que vivenciamos no dia a dia.
Acredito que com isso possamos dialogar e talvez, quem sabe, chegarmos a um denominador comum. Lógico que o debate, dependendo do tema, poderá ser bastante acalorado e não deverá ser encerrado.
As partes envolvidas deverão ter maturidade suficiente para não finalizar e não enveredar para as agressões físicas e/ou verbais.
Em certos conteúdos eu fujo da ideia de que o meu ponto de vista e minha opinião sejam melhor e única.
Eis o poder do diálogo.
No dia 21 de maio de 2018, após várias tentativas de negociação entre o governo federal e os representantes de caminhoneiros, teve início a paralisação que iria mostrar a cara do verdadeiro Brasil.
País que durante décadas foi citado como: “... o país da vez...” – “...o país do futuro...” – “...o país em desenvolvimento...”.
Triste conclusão.
Sabe-se lá quem citou tais frases e o porquê de tamanha previsão equivocada? Esqueceram que havia políticos no meio.
Por um breve momento imaginei, e creio que o caro leitor deste Humanitas também, que a partir daquela data, o “gigante pela própria natureza” havia acordado. Pensei: agora vai! Chegou a hora! Quanta decepção!
E você, caro leitor, ficou surpreso?
Finalmente uma categoria havia saído do ostracismo e se rebelado contra as forças opressoras desse país.
Nos momentos seguintes imaginei que as demais categorias e sindicatos tomariam as ruas e juntariam forças para levantar o gigante. E o povo num lampejo de lucidez sairia de sua moradia e daria mais suporte e sustentação ao gigante. Quanta decepção! Que utopista que fui!
Uma parcela significativa de habitantes desse território chamado Brasil (mais tarde será Brazil), apenas pensou e pensa em seu próprio umbigo. Não pensaram e nem pensam como Nação.
Como conseguir entender um povo que reclama no dia a dia do alto valor de um produto (no caso, a gasolina) – e que na escassez desse mesmo produto quando o encontrou, comprou por um valor bem maior (duas ou três vezes superior) e ainda o estocou? Além disso, enfrentou filas quilométricas num sol escaldante por horas ou dias? E a avareza máxima: vendeu ao seu vizinho e conterrâneo o produto escasso por um valor dez vezes superior?
Naqueles dias de manifestações a escassez não foi apenas de combustíveis, mas de gêneros alimentícios de necessidades básicas.
Comerciantes do ramo, sob a alegação da falta dos produtos (produtos esses que já existiam no estoque antes da paralisação), venderam ao seu cliente e habitante do mesmo território, gêneros alimentícios por valores 70% ou 90% mais caros.
Certos habitantes desta terra não pensam como Nação.
Será que esses podem exigir ética, honestidade, empatia e solidariedade dos políticos?
Embora tenham ocorrido indícios de que a manifestação dos caminhoneiros foi um locaute, a paralisação era o momento ideal para a Nação tomar um rumo.
Infelizmente, o povo não entendeu o recado.
Estranhamente, os sindicatos se calaram.
Por qual motivo?
Há quem diga que só pensamos como Nação e exercitamos o patriotismo de quatro em quatro anos, pela ocasião da Copa do Mundo de futebol.
Seria um momento de orgulho?
Se eu não torcer, estarei deixando de ser um patriota?
O que mudaria para a Nação caso a seleção brasileira de futebol ganhasse a Copa?
Apenas mais uma estrela na camisa daqueles já milionários jogadores (que não têm culpa pelos descasos dos nossos governantes) e ao seu entretenimento.
Sabendo que no dia seguinte e no seguinte, as suas contas chegam e precisam ser pagas, pois a “pátria” precisa receber para que ela possa dar seguimento ao projeto “mais estrelas na camisa da seleção brasileira”.

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