segunda-feira, 2 de setembro de 2019

HUMANITAS Nº 87 - SETEMBRO DE 2019 – PÁGINA 7

Antero de Quental: o poeta da renovação

Especial do Humanitas


O líder intelectual do Realismo em Portugal foi o poeta Antero de Quental (1842-1891). Ele dedicou sua vida à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais de seu tempo e contribuiu para implantar ideias renovadoras.
Nasceu na localidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal, no dia 18 de abril de 1842, e com 16 anos ingressou no curso de Direito na Universidade de Coimbra. O poeta praticou suicídio no dia 11 de setembro de 1891 num banco de jardim em Ponta Delgada.
Na Universidade de Coimbra, Antero se tornou o líder dos acadêmicos, graças à sua marcante personalidade.
Organizou a Sociedade do Raio, que pretendia renovar o país através da literatura e liderou um grupo de estudantes, que repudiava as ideias do Romantismo, criando polêmicas entre a velha e a nova geração de poetas.
No ano de 1865, Antero edita “Odes Modernas”, onde rompe com toda a poesia tradicional portuguesa, banindo o romantismo, o sentimentalismo e a religiosidade lírica. Através de seus poemas nascem as ideias de liberdade e justiça.
As obras foram criticadas pelo poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho, que acusou Antero de Quental de exibicionista, e de abordar temas que nada tinham a ver com poesia.
O poeta responde à crítica em uma carta aberta a Castilho, intitulada “Bom senso e bom gosto”, na qual Castilho é acusado de obscurantista.
Aproveita a ocasião e também defende a liberdade de pensamento e a independência dos novos escritores, atacando o academismo e a decadente literatura romântica, pregando a renovação.
Foi a partir dessa discussão entre os dois poetas que nasceu a “Questão Coimbrã”.
Essa polêmica passou a ser o marco divisor entre o Romantismo e o Realismo em Portugal.
Em 1871, Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, organizaram uma série de "Conferências Democráticas", no Cassino Lisbonense, com o intuito de realizar uma reforma na sociedade portuguesa.
Um dos principais temas desse encontro foi intitulado de “Causas da decadência dos povos peninsulares”.
Quando estava para se realizar a V Conferência, ela foi proibida pelo ministro do reino, e os conferencistas acusados de serem subversivos. Apesar da proibição, o grupo alcança seu objetivo e solidifica as raízes artísticas do Realismo português.

DOIS SONETOS DE ANTERO DE QUENTAL

MAIS LUZ!

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis
À borda dos abismos silenciosos.

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-se, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!
...........................
INTIMIDADE

Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobiçosa,
És bela - e se te não comparo à rosa,
É que a rosa, bem vês, passou de moda.

Anda-me às vezes a cabeça à roda,
Atrás de ti também, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidão ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.

Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!

Não te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo,
Juras - mentindo - que me tens amor.

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