Operação Tarântula: a caça às travestis no Brasil nos anos 1970 e 1980
Francine
Oliveira, articulista deste Humanitas. Mestre em Teoria Literária e
Crítica da Cultura. Atua
em São
João del Rei/MG
- O regime militar foi especialmente duro com LGBTs. Após a abertura política, policiais continuaram a "caçar" travestis com o apoio da sociedade –
As
travestis definitivamente fazem parte do imaginário cultural brasileiro. Estão
nas ruas, na televisão e formam um grupo social único de complexa definição.
Apesar de toda sua visibilidade, isso não
significa que são aceitas socialmente - muito pelo contrário, representam um
dos segmentos mais discriminados e marginalizados da comunidade LGBTTT.
A expressão de gênero feminina não confere
unanimidade às identidades de gênero adotadas pelas travestis: algumas se
identificam como mulheres; outras, como um terceiro gênero entre o masculino e
o feminino. Há ainda aquelas que se dizem homens homossexuais (talvez
reproduzindo um senso comum ainda veiculado pelos meios de comunicação).
De fato, historicamente, algumas travestis
adotaram uma aparência feminina para conquistar mais clientes no mercado da
prostituição, que por vezes se apresenta como único meio de subsistência para
homossexuais efeminados nascidos em famílias pobres e que não puderam pagar por
uma educação de qualidade.
Mas há também as mulheres trans que não têm
condições de pagar pelo processo de transição adequado e recorrem a meios mais
baratos para conquistar o corpo que tanto desejam.
. Há até mesmo aquelas mulheres que não
almejam a cirurgia de redesignação genital e abraçam a ambiguidade de gênero
que acaba por caracterizar a travesti que figura na mentalidade popular
No Brasil governado por militares, não é de
se estranhar que essas pessoas tenham se tornado alvo de perseguição juntamente
à comunidade homossexual (como foi o caso também dos negros, associados à
"vadiagem" e "malandragem"). Apesar de muitas, na época,
trabalharem na indústria do entretenimento como transformistas, a maioria
recorria à prostituição para se manter e, por isso, travestis eram consideradas
criminosas.
Segundo conta o livro “Ditadura e
homossexualidades”, de James N. Green e Renan Quinalha, no início dos
anos 1970 a
polícia civil passou a fazer rondas para reprimir a criminalidade nas grandes
cidades, por meio de blitze.
Assim, apreendiam LGBTs nas ruas sob a
justificativa de averiguação (naquela época, havia uma lei contra a
"vadiagem", que era usada como motivação para deter essas pessoas). A
partir de 1976, a
polícia civil de São Paulo passou a estudar e a combater travestis.
O delegado Guido Fonseca, responsável por
uma pesquisa em criminologia, envolvendo essas pessoas que chamava de
"pervertidos", determinou que toda travesti devia ser levada à
delegacia para que fosse fichada e tivesse sua foto tirada "para que os juízes possam avaliar seu grau de
periculosidade".
Além da repressão oficial, as décadas
1970/1980 testemunharam uma onda de assassinatos brutais de LGBTs, alguns
bastante conhecidos, como o diretor de teatro Luíz Antônio Martinez Corrêa,
irmão de Zé Celso.
Em 1987, a polícia deu início à “Operação Tarântula”, com o objetivo
principal de prender travestis que se prostituíam nas ruas de São Paulo.
Apesar de a operação ter sido suspensa
pouco tempo depois, travestis passaram a ser assassinadas misteriosamente, a
tiros.
Além da suspeita que recaiu sobre
policiais, houve desconfiança da ação de grupos anti-gays
que se manifestavam abertamente e, não raro, a própria população era favorável
à matança como uma forma de "higienização"
das ruas da cidade.
Conhecer esse período tenebroso da história
brasileira é importante para que fiquemos atentos a novas movimentações
semelhantes de ataques à comunidade LGBT - que podem começar como uma
simples defesa à liberdade de expressão e ao direito de "não gostar de
homossexuais".
A linha entre “a livre manifestação de
um ponto de vista preconceituoso” e a “ação” pode ser mais tênue do
que imaginamos.
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