terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

HUMANITAS Nº 15 – OUTUBRO DE 2013 – PÁGINA 4



Temos nada com isso!

Alfredo Bernacchi – Rio de Janeiro/BR – Especial para o Humanitas


Não podemos cobrar de um gay que tenha os mesmos sentimentos, potências e atrações sexuais, conforme nós achamos que deveria ser o correto


A Natureza não é perfeita. Quem ainda não sabe disso? Tire como exemplo as árvores. Várias são as espécies, e conforme caem em terra boa ou má crescem mais ou menos, e mesmo as que foram geradas do mesmo fruto, são diferentes. Veja pelos frutos. "Bananas" maiores e menores, mais retas, mais tortas. As sementes de umas, geram plantas novas e outras apodrecem na terra. São várias as espécies, e dentro da cada espécie tem diferenciações trazidas pela própria Natureza, melhor dizendo, misteriosas para nós, mas são fatos, nossos conhecidos.
Os homens também não escapam dessa diferenciação. Somos diferentes em função do clima e a região geográfica na qual nascemos e vivemos. Negros, asiáticos, índios, brancos, vermelhos, altos, baixos... Somos diferentes em função da saúde de nossos pais reprodutores, suas doenças e seus defeitos congênitos, e também não estamos excluídos das falhas da Natureza, haja vista que a consanguinidade é prejudicial a prole de um casal. Parentes de primeiro e segundo graus, não devem se acasalar e gerar filhos.
Seres humanos nascem grudados (siameses), sem cérebro, com deficiências mentais, com Síndrome de Down, hermafroditas (com os dois sexos completos no mesmo corpo) e os que chamamos de gays e lésbicas, cujos corpos se confundem entre o macho e a fêmea, e os hormônios desequilibrados, geram maior confusão ainda.
O que devemos fazer com esses seres humanos, de todos os exemplos que eu dei acima? Matar? Jogar na vala e incinerar? Fuzilá-los em praça pública porque não são perfeitos? Porque são umas degenerações da Natureza, embora comuns à própria natureza? Devemos confiná-los em locais reservados, de onde não possam sair para se relacionar com os demais, para que não procriem e não repassem geneticamente essa mutação? Tratá-los como doentes contagiosos, sem cura, como se todos fossem aidéticos, alijando-os totalmente do convívio social comum?
Ou devemos tratá-los com maior atenção, carinho, consideração e respeitando as suas diferenças?
Não é assim que tratamos os que têm Síndrome de Down? Não é assim que tratamos irmãos siameses? Não é assim que tratamos os que têm problemas mentais de nascença? Por que não aos que têm um desequilíbrio genético de natureza sexual?
Eles nascem em corpo de homem, mas com hormônios de mulher em demasia! Ou nascem com corpo de mulher, mas com hormônios masculinos acentuados! Ou nascem com corpo misturado de homem e mulher, mais pra lá ou mais pra cá, não faz diferença. Eles são diferentes, mas não são contagiosos.
Acho que eles têm direito à vida, assim como às mesmas obrigações que todos nós temos na sociedade, de acordo com as características de cada um, mas igualmente têm direito à felicidade, à paz, à atenção, à amizade, ao carinho, ao amor, como qualquer outro. 
Eles estão aí e não são nocivos ou prejudiciais, tanto que está cheio de casos de relacionamentos entre esses e os ditos perfeitos. Por quê? Porque mesmo como excepcionais, eles são capazes de viver, construir, amar, ter prazer e dar prazer.
Que seja do jeito deles! Como for possível a eles! Eles não são perfeitos, mas são naturais. Criados pela mesma Natureza que nos criou. Cabe a nós entender isso e tratá-los como iguais, na proporção do que seja possível a eles como seres humanos!
Não podemos cobrar de um rapaz com Síndrome de Down, que seja um excelente matemático ou um atleta olímpico, como não podemos cobrar de um gay, que tenha os mesmos sentimentos, potências e atrações sexuais, conforme nós achamos que deveria ser o correto.
Porque eles são diferentes! Pequenas e sutis diferenças que não os desmerecem na nossa sociedade como seres humanos. Muitos com sentimentos e qualidades morais e físicas até superiores à nossa! E os relacionamentos afetivos deles? TEMOS NADA COM ISSO! Caramba! Cada um que cuide da sua vida!...

...............

Texto extraído de;


...................................

Nota do editor

ATITUDE CRISTÃ?

A seara evangélica fundamentalista brasileira possui imbecis de altíssimo grau, desejando impor discursos morais que a nada levam. Essa seara poderia ser mais inteligente e explorar projetos voltados a políticas sociais. Porém, nada! O discurso desse povo só provoca ressentimento e separação.
Vejamos o projeto da chamada “Cura Gay”,  colocado em discussão na Câmara dos Deputados, mas que agora está engavetado temporariamente. Tal projeto permite aos psicólogos promover tratamento com o objetivo de curar a homossexualidade. A grande maioria dos psicólogos não aceita isso. Claro que não! Esse projeto de lei é uma afronta! Questões pessoais, de comportamento e de foro intimo não devem ser alvo de qualquer tipo de lei por parte do Estado. Tratar o homossexualismo como doença? Isso é um absurdo e uma imbecilidade.
Infelizmente encontramos tais absurdos na política nacional. Até o deputado que criou esse projeto ameaçou a presidente da República, usando sua pretensa futura lei como veiculo de chantagem política. E, mais absurdo ainda, é saber que milhares de crentes brasileiros apoiam essa tal de cura gay e discriminam pessoas que apenas pretendem viver a vida do jeito como elas são. Tais crentelhos nem sequer pensam ou pretendem criar ações para lutar contra a miséria, a fome, o trabalho escravo e outras coisas necessárias e com ligações à humanidade. Essas pessoas patrocinam uma discriminação com o semelhante sem precedentes. Que atitude cristã é essa?!

HUMANITAS – NOTA DE FALECIMENTO



Alfredo Bernacchi morreu - Viva Alfredo Bernacchi!(*)
Texto do escritor Décio Schroeter – Pseudônimo Oiced Mocam


Amigo ALFREDO BERNACCHI.

Você foi e será sempre alguém especial, que , certamente , fez tudo aquilo que pregava, e só pregava qualidades. Você foi uma peça importante no nosso jogo de xadrez para demolir mitos e mentiras: Uma torre?...Um cavalo?... Ou um rei. Um diamante polido! Mas certamente quando a história mencionar o nome do pesquisador das crenças e religiões, escritor e pioneiro no Brasil na internet, fará menção a uma pessoa idealista, ateísta, humanista secular moderno que como cético e racionalista lutou contra a ignorância e estupidez, a mentira, a pseudociência, o sobrenatural, a frente de seu tempo.

Fundamental na passagem do ser humano pela Terra mostrou esse filósofo que não veio para passeio mas sim para fazer a diferença. Muitas vezes polemista com uma raiva genuína, com seu poder de retórica e sagacidade elaborou um ataque completo às religiões e desmoralizou os argumentos de muitos.

Assim a história honrará junto com as pessoas esclarecidas outros livres-pensadores que conheci, e que como eu foram além do comodismo e lutam pela divulgação do humanismo secular, racionalismo e do livre-pensamento, mesmo enfrentando preconceito e intolerância.

As futuras gerações honrarão sua memória e descendência. Agradeço suas palavras sempre incentivadoras, compartilhamos conhecimentos e informações que estão também no meu livro e só lamento não tê-lo conhecido pessoalmente assim como suas inúmeras obras muito antes. Foi um afago no coração. Me envaideceram... Em nome de todos os humanistas e de todos os irreligiosos, nossos sentimentos aos familiares. Agora que partiu vamos sentir a sua ausência! Mas até os mais bravos guerreiros merecem o descanso eterno. Ainda mais quando cumpriram sua missão pelo bem-estar da humanidade de forma tão brilhante.
...........................................
(*) Alfredo Bernacchi colaborou com o HUMANITAS no ano de 2013, mês de outubro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 8


Carnaval!
Festa de cores e luzes!

Especial do Humanitas

No fim deste mês de fevereiro todos os rincões de Pernambuco entram em festa. É Carnaval!
A partir do sábado, 25 de fevereiro, a população estará curtindo o Carnaval de rua! O Frevo! O Maracatu! Os Caboclinhos!
Desde o fim de 2016 que os pernambucanos estão a se preparar para o reinado de Momo.
A folia está presente na alma do recifense, do olindense e dos demais habitantes de outros torrões da terra pernambucana, como se as vidas de todos dependessem dessa louca algazarra.
No sábado, 25 de fevereiro, a festa começa oficialmente.
Nessa data, o maior bloco carnavalesco do mundo, o “Galo da Madrugada” sai às ruas, abrindo a festa, que já teve início algumas semanas antes com as prévias dos blocos, clubes e troças.
Na Quarta-feira de Cinzas, quando a folia acaba, os mais diversos blocos denominados Bacalhau na Vara ainda levam milhares de foliões às ruas para um último adeus à dionisíaca festa, ao frevo, aos amores fugazes e aos sonhos passageiros nascidos em três dias.
Para quem não sabe, o Carnaval de Pernambuco, principalmente no Recife e em Olinda é uma festa genuinamente popular, ainda que os governantes queiram transformar o tradicional evento em algo diferenciado, negligenciando o povo e valorizando o carnaval fechado dentro de espaços apenas abertos para a elite.
Sua majestade, o “Frevo”, continua a reinar, consagrado como símbolo da identidade cultural pernambucana e Patrimônio Imaterial da Humanidade desde 5 de dezembro de 2012.
O Carnaval de Pernambuco é a festa de todos os ritmos. Tem, além do frevo, o maracatu, o samba, rock, e muitas cores, que se misturam num emaranhado de mulheres e homens, fantasiados ou não.

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 7

O olhar da traição

Especial para o Humanitas

Antonio Carlos Gomes é médico e um dos mais atuantes colaboradores deste Humanitas. Mora em Guarujá/SP

No reino animal, ao qual pertencemos, há duas e apenas duas formas aceitas de combate: guerra e predação. O predador ataca sua presa, procurando alimentação, ou cercando-a como fazem os lobos, ou pelas costas como os leões com os grandes animais do qual se alimentam. Faz parte da sobrevivência do grupo e da espécie.
Entre iguais a guerra é sempre frontal, o animal que foge e é ferido pelas costas denomina-se covarde, do mesmo modo que aquele que ataca seus iguais pelas costas sem ser notado.
O humano em sua história tem a tradição de, em conchavos, envenenamentos e punhaladas vencer deslealmente e sem luta seus adversários. A isto damos o nome de traição. Uma vez bem-sucedida a covardia, o elemento enfrentará dois olhos.
Todos, nesta sociedade unanimemente chamada de louca, vivemos sobre dupla vigilância. Somos formados socialmente em nossa infância pelo olhar, olhamos todos e deles incorporamos valores que nos acompanharão pela vida e nos olham dia e noite, vigiam nossas ações e nosso repouso. Sempre o olhar interno está presente estejamos só ou acompanhados.
Por outro lado, o olhar de cada pessoa que cruza nosso caminho, que comparamos conosco, mesmo que não se dirija a nós é presente. A roupa que usa, o penteado, o modo de andar ou a expressão facial olha e compara, não vivemos sem que a sociedade nos olhe e é exatamente isso que conforma o grupo social.                                  
O traidor tem que enfrentar esses dois olhos. O interno que o reprova, mesmo que tente demonstrar que venceu e é superior e também cada pessoa que passa a sua frente.
A duplicidade lembra a paranoia, onde pelo olhar se projeta a própria angústia e os próprios medos a outro.
Nessa cópia de loucura, sente o olhar de reprovação de todos, independentemente  de ser verdadeiro e direto ou falso e dispersivo: para ele todos os reprovam.
Os dois olhares passarão a guiar seu novo mundo infrator, o interno que o recrimina sem parar e o externo que o acusa a cada encontro com humanos. Está instalado o delírio.
De início começa a querer eliminar todos os olhares de quem sabe o que ele fez e o acusa.
Os golpes de estado sempre são seguidos de eliminação dos vencidos por meio da traição. Quer com sangue, masmorras ou exílio, cada olhar externo tem que ser eliminado.
Tal atitude não soluciona o problema, o olhar interno continua acusando, alucinando que o olhar externo de cada pessoa que passa que passa tenha um indicador apontando como acusador.
Na fase a seguir, o traidor começa a atacar seus comparsas para eliminar olhos que o fitam, como se essa solução mágica apagasse o olhar interno que o enlouquece. Em vão!
A solução para aplacar os olhares, até agora malograda, volta-se a tentar o reconhecimento de todos. Qual o reconhecimento que um louco pode ter senão a guerra?
Inicia-se a lavagem de sangue, guerra atrás de guerras, mortes onde os campos de batalha cobrem-se de vermelho, mas os cadáveres continuam a o olhar, já que o olhar está dentro e não fora.
Se a morte não pegar antes nosso delirante, por certo o isolamento de qualquer olhar seja a última e inútil tentativa, pois os olhos internos também estão nas masmorras onde foi jogado. E o infeliz delira até a morte sentindo-se olhado com reprovação.
A história de Napoleão, traindo o proletariado com um golpe de estado, a seguir banhando a Europa de sangue e morrendo isolado numa ilha, mesmo com o reconhecimento de ser um grande general como lhe atribuíram, exemplifica a monotonia que acompanha os traidores.

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 6

Por que a Filosofia enfrenta resistências nas reformas do ensino médio?
James Vasconcellos Mesquita e Ivo S. G. Reis – Acadêmicos de Filosofia do CCHS da UFMS
Especial para o Humanitas

Mal saído do Império (1822-1888) para a República (1889), o país conheceu, em 1890, a “Reforma Benjamim Constant”, que instituía o regulamento da instrução primária e secundária do Distrito Federal.
Essa foi a primeira de uma série de dezessete reformas do ensino que o país enfrentou até agora, incluindo a proposta pela MP 746/2016, de 22/09/2016.
Em quase todas elas, e já começando pela primeira, a Filosofia sempre enfrentou dificuldades - uma verdadeira saga - para ser reconhecida como disciplina essencial e se manter nos currículos, ora entrando, ora saindo.
O mesmo se pode dizer em relação à Sociologia. Desta vez, não foi diferente.
Analisando as reformas que já existiram de 1890 até hoje, verificamos que o tempo médio de vigência de cada uma não ultrapassa os oito anos, o que equivale a dizer que a grande maioria dos estudantes enfrentou pelo menos uma reforma antes da conclusão da sua educação básica, que é de doze anos.
Não estaria aí uma das possíveis causas do baixo desempenho dos alunos do ensino fundamental e médio, revelados pelos índices SAEB, IDEB e PISA (Programme for International Student Assesment)?
Se assim for, mais uma reforma, apressada e imposta por Medida Provisória, não irá resolver o problema, e sim agravá-lo. Há que se combater as causas e não os efeitos.
Saindo das discussões sobre as pseudológicas motivações da reforma proposta e sobre os percalços que a Filosofia enfrentou antes de 2008, verificamos que, a partir daquele ano, a Lei 11.684/2008 incluía o inciso IV, ao art. 36, da Lei 9.394 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), assim dispondo: “IV – serão incluídas a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio”.
Parecia estar resolvido o problema com a obrigatoriedade da inclusão da Filosofia nos currículos do ensino médio. Mas oito anos depois, a tranquilidade acabou quando, em 22/09/2016, o Governo propôs outra reforma educacional, através da MP 746/2016, determinando, dentre outras alterações, a retirada da Filosofia e da Sociologia da base curricular do ensino médio. A sociedade, instituições, profissionais da área e estudantes não foram ouvidos. Protestos começaram a pipocar por todo o país.
Sem considerar as disposições da BNCC (documento que visa sistematizar os conteúdos que devem ser ensinados nas escolas do país), prevista para ficar concluída somente em meados de 2017, o texto-base da reforma foi aprovado na Câmara, em 13/12/2016, permitindo que Filosofia e Sociologia, voltassem a integrar o currículo básico, mas como “disciplinas diluídas” e não como disciplinas obrigatórias, durante os três anos do ensino médio. Daqui para frente, Senado e Presidência deverão ratificar o aprovado. O que vamos analisar agora é por que ocorrem tantas indefinições, quando se trata de avaliar a importância da Filosofia no currículo do ensino médio. A questão é de cunho exclusivamente político porque os principais interessados no assunto – que são os profissionais da área – não possuem coesão discursiva, e nem, ao menos, sabem ser corporativistas. O debate, portanto, é atual.
Às vezes parece capricho; outras, mero desejo, porque, infelizmente, os profissionais de Filosofia não trouxeram argumentos convincentes sobre a indispensabilidade dessa disciplina no Ensino Médio. O Ministério da Educação tem propagado mensagem de que a BNCC foi inspirada nos países que priorizam a educação a ponto de investirem maciçamente no seu aperfeiçoamento, como a Inglaterra, a França, o Japão, a Coréia do Sul e Portugal.
Já os docentes da Filosofia ficam repetindo chavões e jargões esgotados que não têm severidade científica, como: “A Filosofia desenvolve a construção de pensamento crítico”, “A Filosofia torna possível o espírito de questionamento.
Filósofos, educadores de Filosofia, discentes e iniciados, demonstram o quanto a categoria é desunida.
Em diversos artigos publicados no site da Associação Nacional de Pós-Graduandos em Filosofia (ANPOF), observam-se posicionamentos conflitantes, contraditórios e desencontrados entre si.
Os textos são cansativos, sem um fio condutor que os amarre. Definitivamente, não se há de considerar a manutenção da Filosofia no currículo escolar com base em verborragia vazia. Tudo é muito subjetivo e abstrato, sem força de convencimento.
Afirma-se que é importante ensinar a Filosofia no Ensino Médio, ou em qualquer outro período.
Todavia, não se consegue comprovar que a Filosofia é de “suma importância”, ou que é imprescindível.
A solução não está em simplesmente se decretar a manutenção da Filosofia como matéria obrigatória do ensino médio. Tampouco está na sua mera retirada do currículo. Discutia-se em aplicá-la como conteúdo transversal de multidisciplinaridade (resolveria?).
O grande ou o mais profundo problema que se apresenta está em saber por que os filósofos e educadores não conseguem explicar as razões que justifiquem a continuidade da Filosofia como disciplina obrigatória.
.................................
Fontes de consulta:
Textos da ANPOF; Portais: MEC, INEP, OCDE, BNCC, Câmara dos Deputados; Brasil: Leis 9434/96, 11.161/2005, 11.684/2008; MP 746/16; Wikipédia; mídia impressa e digital diversas.

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 5

Cinema e História
Especial para o Humanitas

Araken Vaz Galvão é escritor e membro da Academia de Artes do Recôncavo. Mora em Valença/BA

Por volta de 1967, quiçá 68, assisti, em Montevidéu, dois filmes da então república da Tchecoslováquia, um deles, cujo título era “Una Bomba para el Verdugo”, tratava da reconstrução do atentado perpetrado contra Reinhard Heydrich, o “protetor” do Reich para a Boêmia e a Morávia.
Esse filme, como vários outros daquela antiga república comunista, era de qualidade inconteste. Reinhard Heydrich (1904-1942), dirigente nazista e militar alemão, chefe da polícia nazista, famoso pela crueldade, amigo íntimo de Hitler, foi nomeado por este governador da Morávia e da Boêmia (Tchecoslováquia).
Lembrava-me particularmente daqueles dois filmes e sempre que conversava com dois amigos amantes do bom cinema como eu, os doutores Démorse e Marcos, falava deles e me lamentava não saber informar seus títulos no Brasil.
Mais tarde, vim a saber que um tivera título similar ao que vi no Uruguai: “Trens Estreitamente Vigiados”.
Já o outro, por ter perdido grande parte dos meus apontamentos, porque fiquei muitos anos exilado, demorei anos para conseguir saber qual o título que tivera entre nós.
Aliás, nunca soube nem saberei, pela simples razão de que esse filme não foi lançado no Brasil. Entretanto, graças a uma amiga uruguaia, Adriana, consegui matar a charada.
Aquele filme, teve como diretor Jiri Sequens, e o título original em tcheco era Atentát (O Atentado) e fora feito no ano de 1964. Este diretor não consta no dicionário de cineastas que possuo.
Lembro-me que havia uma relação com o nome Reinhard Heydrich, ou com uma alcunha carinhosa que os nazistas lhe deram, que significava “anjinho”. Logo a ele que era um sanguinário verdugo e que foi apelidado de “o carniceiro de Praga”. Heydrich, ao ser assassinado pela resistência tcheca – se bem que assassínio aí é um eufemismo, pois o nome que se aplica nesses casos (os de matar um opressor estrangeiro) é justiçamento – provocou um dos maiores massacres da história da humanidade: a aldeia tcheca na Boêmia Central, Lídice, próxima de Praga, foi arrasada pelos nazistas, por ordem pessoal de Hitler, em represália. Por esse motivo ela foi transformada em monumento mundial contra o genocídio.
Em todo o mundo Lídice passou a representar esse símbolo, da mesma forma que existem cidades e vilas no Brasil (e em todo o mundo) com este nome. Até como nome de pessoas existe. Em Salvador/BA tivemos uma prefeita com o prenome de Lídice.
Sobre o atentado em si, alguns historiadores dizem que ele foi completamente inócuo, e que se tratou apenas de mais uma perfídia da “Pérfida Albion”, com o fito de desarticular a eficiente resistência tcheca, da qual a Inglaterra não tinha controle, pois agia sob o comando do partido comunista. Há também a comprovação (ou especulação) histórica de que enquanto os patriotas tchecos eram massacrados, o capital inglês se locupletava com a “secreta” participação nas importantes indústrias, inclusive de armamento daquele país.
O atentado – de grande repercussão política e de grande impacto propagandista para os Aliados foi organizado em Londres, pelo serviço secreto britânico, o qual treinou os partisans tchecos e os lançou de pára-quedas em território inimigo - Partisan, maqui, são nomes que, na Europa, significam guerrilheiro.
No meu tempo chamávamos de “combatente revolucionário”. Eu, ainda que de forma muito modesta, fui um deles.
O grupo, uns cinco ou seis, contou com o apoio da resistência tcheca, e depois do atentado e da localização do grupo vindo da Inglaterra, no porão de uma igreja, aqueles heróis não se renderam, resistiram até o fim, reservando a última bala para se matarem.
É preciso que se diga, no entanto, que o sacrifício de Lídice deu-se como represália, antes mesmo de terem identificado os autores do atentado. Dizem alguns historiadores de hoje que, com isso, os ingleses marcaram um grande tento de propaganda e, ademais, diminuía a influência dos comunistas, já que os seus melhores quadros teriam sido (e foram realmente) sacrificados.
Mas a guerra ainda durou alguns anos, a Tchecoslováquia foi ocupada por tropas soviéticas, o stalinismo foi instalado, muita água passou sob a ponte – como se diz – o Muro de Berlim caiu e hoje aquele país foi dividido em duas repúblicas, a Tcheca e a Eslováquia, dentro da melhor prática do princípio romano: dividir para dominar.
Mas isso já é outra história e não tem mais nada a ver com cinema...

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 4

A ordem sequencial das tragédias
Especial para o Humanitas

Ana Maria Leandro - uma das principais colaboradoras do Humanitas -  é escritora e jornalista. Atua em Belo Horizonte/MG

Sobre os horrores acontecidos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaq), em Manaus, as “autoridades” conseguiram definir rapidamente a causa, para resposta à sociedade: “a revolta foi motivada por briga entre facções”.
Pronto, pivô detectado, a responsabilidade é dos prisioneiros mesmo, (que, aliás, são mesmo um problema para a nação) e podemos ir deitar sossegados que não temos culpa nenhuma!
É impressionante como as instituições governamentais (algumas vezes também privadas e “propinadas”), insistem em achar “causas” das quais não precisem assumir culpas, pois isso sim, é o que é preocupante...
Esse processo me faz lembrar a frase: “fuja de seus erros e não se livrará deles...”
Há pouco tempo, na tragédia da queda do avião do time de futebol do Chapecoence, atribuíram a culpa à moça que “bate carimbo” de aprovação do vôo.
Se lhe fosse outorgado o poder de dizer “não baterei o carimbo, pois há problemas neste plano de vôo” o carimbo não bateria sozinho. Mas este problema não é analisado.
Considerar que a “causa verdadeira” antecede ao ato e que tem fundamentos muito mais longilíneos e exigentes de providências, é difícil e desestabiliza o “status quo”. Dá trabalho, gasta-se dinheiro e nada sobra para se fazer corrupção.
E assim vamos neste pobre país (pobreza de alicerces é a pior pobreza), apontando as falhas de ponta, e manipulando o esclarecimento das de fundamento.
Quem não sabe que a superlotação de presos nos presídios públicos (e já alguns privados) é absurda, e significa um fantástico caminho para a união e consequente estouro de tragédias promovidas pela marginalidade?! Briga de facções!? Mas como? Havia facções rivais juntas? Isto é jogar combustível no fogo!
Já se sabe que ao fato antecedeu-se barulhenta festa e música alucinante. Naturalmente que não era uma festa regada a água e refrigerante! E os “ingredientes” (melhor nem citar a diversificação do cardápio) da festança? Como entraram? Será que acharam alguma “moça do carimbo” que autorizou?
Aliás, essas pobres moças são “grandes autoridades” quando os problemas acontecem. Quando não há problemas são apenas “carimbadoras” mesmo... E naturalmente dirão que o que vou citar a seguir tem origens na formação também pedagógica que possuo.
Mas se traçarmos uma linha entre o que se aplica em educação e sistema carcerário veremos um grande equilíbrio.
As escolas públicas também têm salas superlotadas para professores mal pagos. Nos sertões do país então nem se fala nas condições das salas de aula. E mais: assassinatos já aconteceram até em salas de aulas de grandes centros urbanos.
Por outro lado, o sistema carcerário trabalha com seguranças de celas superlotadas, também com salários mínimos; e o agravante até de provocar os problemas de concessões ilegais para presos, em troca de ganhos adicionais.
Na Educação o governo vem com a eterna solução de superfície: “vamos mudar o sistema educacional. Tiramos disciplinas, colocamos outras mais atraentes (vão ficar mais atraentes só se forem aplicadas por extraterrestres, pois os professores aqui da Terra, nem ao menos recebem treinamentos para essas mudanças); convencemos os alunos que eles é que terão o livre arbítrio de escolher o que querem (o marketing é sensacional!) e assim acabamos com a invasão de escolas por alunos descontentes. Melhorias de condições salariais para o professor (psiiiuu... silêncio).
E pelo que está sendo analisado nas reformas da Previdência, corre-se o risco de um professor ter de trabalhar além dos setenta anos, lidando com crianças e adolescentes!
Lançam pretensas “inovações” como se estivessem descobrindo a roda.
Qualquer pessoa em torno de sessenta anos, recebeu na antiga escola secundária orientações vocacionais, como parte do programa em atividades aplicadas: marcenaria; economia doméstica; etc.
Quem nesta faixa etária não se lembra das antigas “oficinas”, para que o aluno pudesse receber orientações de atividades práticas, que lhes servissem de base para futuras escolhas profissionais?
Com o tempo, foram tirando este programa aplicativo e caiu-se no programa comum para o Ensino básico (que inclui da 1ª à 8ª série).
Agora, lançam a proposta como se fosse inédita!
Está bem, retomar caminhos que se demora a descobrir que eram melhores é saudável. Mas não me venham com bordões de “Inovação no Ensino”.
Por favor, entendam de uma vez, que a evolução da vida é sequencial, e que o que deixamos de fazer de necessário no hoje, fará falta amanhã...

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 3



Refúgio Poético

POEMA DO MÊS

CARNAVAL – Rafael Rocha

(1)
Visto a fantasia da ilusão
neste carnaval da vida.
O frevo faz o coração
marcar o passo na avenida.
Escrevo a marcha poesia
e crio nova nostalgia:
a máscara negra do dia!
(2)
Homem da Meia-Noite:
em Olinda sou turbilhão!
No Galo da Madrugada
conquisto um coração!
Peço: tristeza vá embora!
E ainda assim a alma chora
o fim dessa glória!
(3)
Carnaval! É Carnaval!
Apenas três dias de alegria!
O amor é casual
e a pobreza se faz rainha
e o amor é casual!
A folia é uma passageira
da trama de um Zé Pereira
pra morrer na quarta-feira!
(4)
Sou um poeta carnavalesco
e um triste pierrô!
Arlequim grotesco
busco a colombina do amor!
E vendo a menina a frevar
sua boca quero beijar
e seu lindo corpo amar!

Rafael Rocha Jornalista, escritor e poeta. Natural do Recife/PE. Tem sete livros publicados: Meio a Meio (poesias); A Última Dama da Noite (romance); O Espelho da Alma Janela (contos); Marcos do Tempo (poesias); Olhos Abertos para a Morte (romance); Poetas da Idade Urbana (poemas em parceria com os poetas Genésio Linhares e Valdeci Ferraz) e Felizes na Dor – Tributo ao poeta Charles Bukowski (poesias). Foi agraciado pela Academia Pernambucana de Letras, em 1989 e em 2011 pelos livros O Espelho da Alma Janela (Prêmio Leda Carvalho) e Olhos Abertos para a Morte (Menção Honrosa – Prêmio Vânia Carvalho), e, em 1986, pela Academia de Letras e Artes de Araguari/MG com Menção Honrosa pelo seu conto “Grãos de Terra Sobre”.
......................................
Poema de uma Quarta-feira
de Cinzas
Manuel Bandeira
Do livro Carnaval (1919)

Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrô doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e desgraça...

O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,

Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e desgraça...
.....................................
Soneto de carnaval
Carlos Pena Filho
(1929/1960)
Recife/PE

Do fogo à cinza fui por três escadas
e chegando aos limites dos desertos
entre furnas e leões marquei incertos
encontros com mulheres mascaradas

De pirata da Espanha disfarçado
adormeci panteras e medusas
Mas quando me lembrei das andaluzas
pulei do azul, sentei-me no encarnado

Respirei as ciganas inconstantes
e as profundas ausências do passado
porém, retido fui pelos infantes

que me trouxeram vidros do estrangeiro
e me deixaram só, dependurado
nos cabelos azuis de fevereiro
.....................................
CARTAS DOS LEITORES

Sensacional! O Humanitas vale a pena ser lido. Uma pena que tenha tão poucas páginas. Carlos Ezequiel Lima – Niterói/RJ
******
Humanismo puro e real! Qual mídia faz isso? Vera de Oliveira e Silva – Olinda/PE
******
A coragem de ser faz o ser.  Quem não tem coragem de ser verdadeiro nem sequer deve existir. Adoro o Humanitas. Karla Spinelli de Oliveira Lima – Olinda/PE
******
Muito importante o Humanitas para quem deseja ganhar conhecimentos. Marcus de Castro e Silva – Rio de Janeiro/RJ