terça-feira, 30 de setembro de 2014

HUMANITAS Nº 28 - OUTUBRO DE 2014 - PÁGINA 8

É só um exemplo...

Divina de Jesus Scarpim – São Paulo/SP


Estava voltando do supermercado. Chovia e a temperatura era baixa, bastante baixa em comparação ao calor próximo dos 40 graus do último fim de semana. Com chuva e com frio, deitado sobre um pedaço de papelão molhado vi um rapaz de talvez uns 15 anos, vestindo shorts e camiseta e dormindo encolhido com as mãos entre as pernas e a cabeça coberta pelo boné na calçada ao lado da padaria.
Do outro lado da rua, na calçada rente ao supermercado, uma família com talvez um adulto ou uma criança bem mais velha (não deu pra ter certeza porque estava com a cabeça e o corpo cobertos) e uma menina e um menino.
Os três dormiam juntos, encolhidos e cobertos com pedaços de lençóis, também sobre pedaços de papelão molhado. O menino pequeno, por estar mais para o lado de fora, estava também provavelmente recebendo respingos da chuva.
Os quatro dormiam um de um lado e três do outro lado, na calçada de uma avenida movimentada do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa do Brasil do Futuro, a cidade das Olimpíadas de 2016 do país que tem aparecido como exemplo de desenvolvimento nos quadros econômicos do mundo.
Os quatro dormiam e eu sinto aquele nó forte no meu peito impotente e grito alto e raivosamente para dentro do meu silêncio: E AINDA QUEREM ME CONVENCER DE QUE EXISTE UM DEUS DE BONDADE QUE CRIOU O MUNDO!!!!
Alguém me dirá que eu poderia deixar de ser egoísta e, em vez de amaldiçoar esse deus, ajudar essas pessoas.
Eu responderia que não recebo salário há um ano e meio, moro em um cômodo único com banheiro e não tenho como abrigar quatro pessoas.
E também acrescentaria que mesmo tendo condições, isso não diminuiria minha raiva porque sei que essas pessoas são quatro de uma quantidade muito maior que dorme agasalhada por papelões e que não tem nada.
Diriam então que eu poderia ajudar com doações a instituições de caridade e eu responderia que isso também não resolve porque há instituições de caridade e há doações e ainda assim continuam existindo pessoas que dormem em cima de papelão e não têm nada.
Outra pessoa diria que esse quadro e essas cenas são culpa do homem e não de um deus.
Discursos e discursos são feitos para provar que tal deus não tem culpa, não deseja e até sofre com essas aberrações ainda mais do que eu. E eu respondo que esses discursos não me convencem de forma nenhuma porque se existisse esse deus todo bondade, com todo poder e toda a onisciência que afirmam que esse deus tem, ele não teria criado o mundo com a possibilidade de existir gente que dorme em pedaços de papelão e não têm nada. Não teria criado o mundo com a possibilidade de existir pessoas que permitem que outras pessoas durmam em pedaços de papelão e não tenham nada.
Não entra na minha cabeça, não dá para ser aceito pelo meu reduzido e miserável cérebro, não pode ser alcançado pela minha parca inteligência um deus, ou a possibilidade de um deus criador, que sendo bom e poderoso tivesse a apresentar como sua criação esse mundo em que vivo e onde encontro pessoas que dormem em pedaços de papelão e que não têm nada.
Se esse deus é todo bondade ele não teria criado pessoas com condições de por algum motivo se tornarem pessoas más.
Se esse deus é todo poderoso ele obrigatoriamente teria poder para criar um mundo onde as pessoas não tivessem propensão à maldade, à ganância, ao egoísmo, à indiferença.
Se esse deus é onisciente ele saberia antes de dizer “Faça-se a luz” que no futuro haveria pessoas que dormiriam em pedaços de papelão e que não teriam nada.
Eu não entendo, eu não entendo, eu não consigo entender como é que as pessoas conseguem ver outras pessoas dormindo em pedaços de papelão e ainda assim acreditar em deus, dar dinheiro para as igrejas e dizer que deus é bom.
Eu não entendo! Eu não entendo!

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