sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 2

EDITORIAL

Concepção por estupros

O Brasil é um país de mestiços.
Tal como diz nossa historiografia, nós somos descendentes de três etnias, a branca europeia, a indígena (natural da terra) e a africana.
Tudo isso nos remete a uma questão de gênero, pois as mulheres indígenas e as africanas não tiveram opção de escolha quanto aos seus parceiros sexuais homens, e muito menos no que tange à concepção de seus filhos.
As africanas e as indígenas foram estupradas pelo colonialista europeu branco, sendo obrigadas a trazer ao mundo os filhos resultantes desses estupros. Essa é uma verdade incontestável.
Mulheres indígenas e mulheres negras, todas foram capturadas e “domesticadas” para que pudessem servir ao apetite sexual e às taras dos brancos ricos.
Depois, as três etnias se miscigenaram. Porém, apenas uma delas tornou-se prevalente: a do homem branco, cujo poder estava ligado à força e ao fator ideológico. A cultura do homem branco aculturou os valores das culturas dominadas.
Portanto, nós, brasileiros, somos descendentes das três etnias citadas, a partir das relações sexuais forçadas e violentas de homens brancos com mulheres negras e índias.
Não existe exagero algum quando afirmamos que nossos antepassados foram gerados por estupros consumados pela força física, pela força das armas e pela força do poder político-econômico-cultural.
Mostramos isso na PÁGINA 8 deste HUMANITAS, em artigo do professor Durval Arantes, onde ele ainda salienta que “as mazelas deste início questionável da civilização brasileira podem ser sentidas nas investidas do turismo sexual europeu, que ainda assola a costa brasileira de norte a sul do país, em pleno século 21”.
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Apologia do medo – Especial do HUMANITAS

As pessoas esbravejam que têm fé! Gritam que acreditam em Jesus! Qual o motivo? Simples: no livrinho preto e mágico que elas dizem ser sagrado está escrito que se não acreditarem vão para o inferno depois que morrerem e lá passarão o resto da eternidade.
Isso se chama “APOLOGIA DO MEDO”!
Assim, esse povo medroso sai às ruas para encher o saco dos outros para que esses outros passem a acreditar nas mesmas sandices. Por quê?
Porque no tal livrinho sagrado existe a ordem: “elas têm que evangelizar, senão vão para as profundezas do fogo eterno”. Tais pessoas evangelizadoras são egoístas. Usam do apelo sentimentaloide “por que você não acredita em meu deus? Ele é bonzinho e oferece muito”. Essas pessoas têm que manter viva a crença, de forma que não descubram que são um bando de alienados.
Realmente, elas são idiotas e alienadas, mas não querem que os outros saibam disso. Depois de muita conversa fiada com a outra ou as outras pessoas, sempre terminam dizendo “arrependam-se” ou, ainda, “estarei orando por vocês”.
Alguém diz que viu alguém ser curado com a força da fé e repassa isso para o outro. Aquele que recebeu o repasse também repassa, como num jogo coletivo de futebol ou de basquete: “toma a bola que é tua e dá o passe”. Mas provar o milagre ou a cura é que é difícil. Evidências! Evidências! Onde elas estão? Na crença? Na fé?
Cada pessoa pode acreditar no que quiser. Não temos nada com isso! Mas quando aparece um idiota ou um alienado dizendo que o homem nasceu há 6 mil anos através de um punhado de barro moldado por um deus tribal criado por um bando de pastores da Idade do Bronze...
Isso irrita! As pessoas que propagam isso são alienadas, interesseiras, “medrosas”, e, quiçá, “loucas”. Mas acreditamos que loucura tem hora e dia para acontecer, e fazer com que o outro também fique louco é crime.
Creia no que quiser, mas guarde para si. Por mais estapafúrdia que seja sua crença, procure não causar mal a ninguém com ela. Seja responsável. Acredita que um deus possa lhe salvar se você pular do alto de um edifício? Então pule e saia voando pelo espaço, faça um vídeo sobre isso. “E aterrisse ileso”. Talvez assim possamos acreditar no poder de seu magnânimo deus.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PRIMEIRA PÁGINA

O BRASIL FOI FECUNDADO VIOLENTAMENTE
NOS VENTRES DAS INDÍGENAS E DAS AFRICANAS
- A concepção do povo brasileiro ocorreu através de estupros e do sexo abusivo –

O professor Durval Arantes
diz na PÁGINA 8 que pelo menos em 200 anos da História do Brasil,
as  mulheres indígenas e as africanas foram violentadas e estupradas pelos colonizadores portugueses e que as mazelas do início da civilização brasileira podem ser sentidas nas investidas do turismo sexual europeu, que ainda assola a costa brasileira, de norte a sul, em pleno século XXI.
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21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância
Religiosa. Leia artigo na
PÁGINA 6, do jornalista
 Rafael Rocha
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O poder sexual como ferramenta de libertação é o tema do professor Thomas de Toledo,
na PÁGINA 5
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O Humanitas deseja aos leitores
e colaboradores que o
ano de 2017 seja repleto de conquistas
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Na PÁGINA 4 a neurocirurgiã Suzana Herculano-Houzel
fala sobre o livro do também neurocirurgião
Eben Alexander III

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 8

Natal, Papai Noel, Jesus Cristo e ateus

Especial do Humanitas

Quando buscamos a verdadeira história do natal, acabamos diante de rituais e deuses pagãos. Sabemos que Jesus Cristo foi colocado como “penetra” numa festa que nada tinha a ver com ele.
Afinal de contas, não existem provas de que tal indivíduo existiu e muito menos que nasceu em um 25 de dezembro.
O verdadeiro simbolismo do natal oculta uma história das mais antigas criada pelo homem. A festa tem origem no que chamam de paganismo.
Era um dia consagrado à celebração do “Sol Invicto”. O Sol é representado pelo deus greco-romano Apolo, e seus equivalentes entre outros povos pagãos são diversos: “Ra”, o deus egípcio; “Utudos”, na Babilônia; “Surya” da Índia; e também “Baal” e “Mitra”.
“Mitra” era um deus muito apreciado pelos romanos. Aureliano (227-275 da Era Comum), imperador de Roma, estabeleceu no ano de 273 da Era Comum, o dia do nascimento do Sol em 25 de dezembro “Natalis Solis Invicti”, que significava “Nascimento do Sol Invencível”. 
O Império Romano passou a comemorar nesse dia o nascimento de “Mitra Menino”, deus indopersa, que, segundo diz a lenda, ao nascer foi visitado por reis magos e presenteado com mirra, incenso e ouro.
Era também nessa noite o início do Solstício de Inverno, segundo o Calendário Juliano, que seguia a “Saturnália” (17 a 24 de dezembro), festa em homenagem a outro deus chamado “Saturno”.
Essas festividades pagãs estavam arraigadas nos costumes populares desde tempos imemoriais até serem suprimidas com o advento do cristianismo, imposto (através de decreto) como religião oficial por Constantino (317-337 da Era Comum), então imperador de Roma. Como antigo adorador do Sol, e influenciado por isso, Constantino fez do dia 25 de dezembro uma festa cristã.
Constantino transformou as celebrações de homenagens à “Mitra”, “Baal”, “Apolo” e outros deuses, na festa de nascimento de “Jesus Cristo”.
Já sobre “Papai Noel”, esse velhote de longas barbas brancas já era capa de revistas, livros e jornais, no final do Século XIX, aparecendo em propagandas do mundo todo.
O personagem foi ganhando várias nuances até que em 1931 a “The Coca-Cola Company” contrata um artista e transforma Papai Noel numa figura totalmente universalizada. Assim, sua imagem terminou por ser adotada como o principal símbolo do natal.
No ateísmo não existe uma figura de deus ou deuses para crer e adorar. Portanto, não faz muito sentido para o ateu festejar o dia 25 de dezembro. Afinal, essa data, hoje, é a do hipotético aniversário de um outro deus imaginário, denominado “Jesus Cristo”.
Então o ateu deve ficar trancado no quarto de sua casa até a data passar? Nada disso!
Para o ateu todo dia deve ser de festa e de homenagem à vida. Assim, o ateu participa da festa de natal pelo mesmo motivo dos cristãos: para comer, beber, cantar, dançar e ficar batendo papo com a família e com os amigos depois da meia-noite.
Por outro lado, o comportamento humano nessa data realça uma tremenda hipocrisia em cerca de 90% das pessoas.
Por que será que nessa época todos ficam tão solidários com os mais necessitados?
Por que será que doam cestas básicas para os pobres e presentes para as crianças órfãs, e, no resto do ano, esquecem que essas pessoas existem?
Em outras palavras a festa de natal é uma festa capitalista onde predomina a hipocrisia.
No mais, tudo é mitologia. Tudo provém das religiões pagãs europeias, anteriores à chegada do cristianismo. 

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 7


Mulheres negras lutam contra preconceitos

Especial para o Humanitas

Aline Cerqueira é historiadora e colaboradora deste Humanitas. Mora em Salvador/BA

Desde a escravidão negreira que a marginalização das mulheres negras é evidente. Muitas tiveram suas vozes silenciadas. As práticas de lutas muitas vezes acabam ficando adormecidas nas discussões dentro da sociedade.
Quando pensamos que as mulheres negras foram construtoras de uma luta travada no período mais injusto da sociedade brasileira (a chamada escravidão dos povos africanos no Brasil) vem um chamado ao combate ainda mais forte nos tempos de hoje.  
Diante da construção de liberdade travada a sangue, e o desejo por uma sociedade mais justa e livre de opressão é que podemos compreender a importância do povo negro no Brasil, sobretudo das mulheres que tiveram um papel de guerreiras e libertárias diante do sistema opressor.
Como exemplo, temos Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares, rainha, mãe e guerreira, porém muitos outros nomes foram negligenciados pela historiografia brasileira. Os livros didáticos não citam o papel das mulheres negras na construção da liberdade no país. Além disso, a mídia e muitos canais de informação não mostram quais foram as que conseguiram guerrear com todas as suas forças contra a opressão.
Parafraseando Pierre Bourdieu “a raiz da violência simbólica estaria deste modo presente nos símbolos e signos culturais, especialmente no reconhecimento tácito da autoridade exercida por certas pessoas e grupos de pessoas”.
A maneira como foram conduzidos os debates na sociedade brasileira contribuiu ao longo dos anos para a exclusão social, ficando claro o quanto o papel da mulher negra na sociedade ainda sofre imposições e normas comportamentais.
As pessoas foram habituadas a acatar uma sociedade branca e até hoje creem no mito de um Brasil cordial e miscigenado. No entanto, o que realmente prevalece é a herança europeia de superioridade.
O mito da democracia racial foi bem construído por cientistas sociais como Gilberto Freire, e perpetuado pela mídia brasileira que sempre deu destaque à cultura branca.
A sociedade brasileira continua a criar um estereótipo errôneo ao mostrar o branco como referência no meio social.
Se tivermos senso de justiça percebemos logo como se apresenta o papel da mulher negra na sociedade brasileira.
A sua participação na política e nos meios midiáticos é negligenciada século após século.
Mesmo com os acessos de muitos negros às universidades brasileiras e com trabalhos de destaque nas últimas décadas, continuamos a conviver com o racismo.
Ainda existe a tendência de enxergar o negro como ser inferior, sob a alegação de que muitas pessoas negras estão em postos de trabalho que não correspondem ao seu lugar na sociedade.
Quem assim pensa acha que o lugar “reservado” ao negro na sociedade brasileira é o da exclusão social e o da “vida de servir”.
Tais condições foram construídas e perpetuadas ao longo dos séculos por uma elite branca e racista que se acha no dever de dar uma continuidade ao legado da casa grande.
A escravidão deixou marcas profundas e o não aceitamento da cultura africana e da sua religião são provas cabais de que existe uma supremacia branca. O superior (branco) e o inferior (negro) são justificados nas ações cotidianas. Isso está perceptível em nossa sociedade.
À medida em que as ideias dos movimentos de mulheres e dos movimentos negros vão avançando, a visão estereotipada da mulher negra  na sociedade está sendo contraposta, surgindo, assim, expressões de valorização e de reconhecimento para desmistificar conceitos preconceituosos. Vale lembrar como exemplo a luta pelos direitos civis dos movimentos feministas no Brasil.
As mulheres negras precisam ser ouvidas, a fim de que possam falar de seus medos, angústias, frustrações e conquistas ao longo da sua caminhada como entes organizados na luta contra o racismo. A fala coletiva tem de ressoar, rompendo o silêncio e revelando seus sentimentos, o que possibilita encontrar alternativas e coragem para enfrentamento dos conflitos.
Elas são protagonistas de muitos combates travados com o propósito de mudança social e pretendem ser protagonistas da história, lutando por seus direitos e buscando liberdade para construir uma sociedade mais justa, onde todos possam viver em qualquer espaço sem que seus sonhos sejam destruídos.

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 6

A necessidade de opinar

Especial para o Humanitas

Jorge Oliveira de Almeida é um autodidata e colaborador deste Humanitas. Mora no Rio de Janeiro/RJ

Os artigos publicados neste HUMANITAS refletem a capacidade intelectual de seus autores. A edição de outubro de 2016 está repleta de textos da melhor qualidade (eu diria que todos!), como sempre acontece.
Estão de parabéns os leitores desse pequeno grande jornal que se agiganta a cada dia. Como é dirigido aos livres pensadores, por isso mesmo auguramos que a quantidade de leitores se multiplique.
É de salutar importância que as ideias aqui apresentadas não sejam aceitas como absolutas, sem qualquer questionamento, mas que, ao contrário, sejam debatidas com racionalidade; porque não se trata de ganhar ou perder, pois essa linha de pensamento é totalmente fora de propósito, para nós, leitores e colaboradores. Devemos tão somente desejar que os artigos aqui expostos nos levem a concordar ou discordar, que nos levem a pensar, enfim, procurando alcançar a Verdade!
A Verdade não é para nós tão somente a verdade científica, que também não é absoluta, pois que pode ser revista e corrigida a qualquer tempo, diferentemente da religião, que procura impingir aos seus inocentes seguidores, por exemplo, que a Terra é o centro do Universo, e isso não depende de interpretação, pois é assim que está escrito nos livros sagrados. Não há como interpretar de outra maneira. 
 A verdade para nós não é a antítese da mentira. Ao discordarmos do que quer que seja, isso não significa que estamos a considerar que o nosso debatedor esteja faltando com a verdade. Significa, simplesmente, que não concordamos com o seu ponto de vista; isto, é claro, se temos certeza de suas boas intenções. 
Poderíamos discorrer sobre a Verdade, mas não seria o caso de aqui fazê-lo. Entretanto, é bom que se diga que a Verdade é uma só. Não existe uma verdade pela metade.
O problema é saber qual é essa verdade. Os debates servem justamente para isso, para procurar encontrá-la. Entretanto, podem existir diversas interpretações, o que não significa que possa haver mais de uma verdade!
 Por tudo isso, permito-me discordar de um dos pontos de vista do sr. Manfred Grellmann no artigo da última página do HUMANITAS de número 52, outubro/2016.
Ele comenta que o motivo para que não houvesse refrigerante numa feira em São Paulo seria devido a uma imposição da prefeitura, que considera que a não oferta de refrigerantes, mas de caldo de cana, obrigaria os fregueses a optar pelo caldo de cana, muito mais saudável, como ele mesmo diz, e questiona: “Cadê a liberdade de escolher o que se quer vender e beber?”
Entendo que o Estado, seja em que nível for, deveria preocupar-se com o bem-estar do cidadão e de seu desenvolvimento como pessoa, visando em última análise o desenvolvimento da sociedade.
Imagino que o sr. Manfred não atentou até onde pode chegar o questionamento por ele levantado.
Se verdadeiro aquele raciocínio, as drogas não deveriam sofrer limitações para venda e consumo.
Talvez também não tenha atentado ele para o fato que aquele tipo de raciocínio é típico do capitalismo, que não dá a mínima para a saúde do cidadão e não visa senão o lucro, não só vendendo qualquer produto à população, mesmo que lhe proporcione malefícios, como sem qualquer pejo adulterando medicamentos para doenças terminais.
  Assim, que me desculpe aquele companheiro, mas o Estado não funciona adequadamente porque os nossos representantes não são dignos de crédito, e isso confirma com suas ações, mas nesse caso me parece que a prefeitura de São Paulo está agindo dentro de suas precípuas atribuições, devendo pelo menos nesse caso específico, ser parabenizada.

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 5

Patrulhamento ideológico sobre a atividade docente

Especial para o Humanitas

Paulo Alexandre é mestre em História. Mora e ensina no Recife/PE

O famigerado Programa Escola sem Partido é amparado numa absurda justificativa de combate à ideologização educacional – como se educação fosse uma atividade desprovida de bases ideológicas – que, contraditoriamente, é amparado em uma perspectiva ideológica.
Posiciona-se contra a doutrinação, mas prevê a doutrina da mordaça e o tolhimento da autonomia da atividade docente.
Claro que fazer apologia partidária, proselitismo religioso ou militância de movimento político no ambiente escolar e no processo formativo dos jovens é uma postura digna de críticas e certamente é uma prática que deve ser coibida pontualmente, quando ocorrer e quando for devidamente configurada a prática. 
Mas o que surge com esse “movimento” não é isso, e sim uma atuação generalizante de enquadrar ideias e posturas ideológicas que não agradam aos promotores dessa perspectiva.
Já há efeitos dessa mentalidade em propostas de criminalização de ideias e, óbvio, de enquadramento de professores.
A censura estúpida apregoada como postura a ser implantada e imposta nas escolas virou proposta de alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) através de um Projeto de Lei do senador Magno Malta.
Esse projeto é lastreado por justificativas insustentáveis fora do aspecto meramente opinativo e – obviamente – ideológico e doutrinário do próprio patrocinador da proposta legal.
Ele contém erros crassos como o emprego da ideia ultrapassada de “opção sexual” (aludindo ao fato de que professores podem induzir “opções sexuais”), bem como do princípio de que a escola deve  promover parâmetros morais e religiosos sob a incrível alegação de que não há moralidade fora da religião.
Pelo projeto, escolas e professores estarão sujeitos a um incessante patrulhamento de suas posturas e não apenas de suas atividades por meio de “julgamentos” fundamentados em parâmetros ideológicos.
Isso é,  obviamente, uma contradição absurda se a alegada proposta de instituir o Programa Escola sem Partido tem como objetivo o “combate à ideologização”.
Na prática, a proposta gera um ambiente antidemocrático e limitado para o processo educacional
  Não cumpre a falsa promessa de lidar com a ideologização, uma vez que é claramente ideológico e obscurantista
Já houve um tempo em que o obscurantismo ideológico vigiava nossas escolas. Não podemos aceitar o retorno disso.
Não podemos impedir que a escola seja um ambiente para a discussão de ideias, para a valorização e respeito ao amplo espectro de diversidades, para a construção de tolerância e convivência construtiva. Esse projeto é o oposto a tudo isso.
Somos contra a instauração da “mordaça educacional”.

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 4

Um pouco de cinema
- John Ford -

Especial para o Humanitas

Araken Vaz Galvão é escritor e membro da Academia de Artes do Recôncavo. Mora em Valença/BA

Muitos dizem que o chamado western “psicológico” nasce com “No Tempo das Diligências” (Stagecoach - 1939). Sabemos, porém, que há antecedentes. Entretanto, se aceitarmos tal como verdadeiro – pois não há dúvida que esse filme não só consagrou o gênero, como também fixou o estilo – teremos que identificar o por quê dessa afirmativa.
É verdade que, antes desse filme, o western, chamado “primitivo”, limitava-se, sobretudo, em contar uma história, geralmente divertida, com assaltos a trens, a bancos ou a diligências, de forma esquemática e eficaz, sempre explorando os mitos, histórias e personagens do Oeste ou Velho Oeste, como foi chamado, pelos americanos – sempre tão orgulhosos e jactanciosos – como se nos estivessem lembrando: “Essas coisas hoje pertencem ao passado, são simplesmente lendas. Já não somos mais assim”.
Há que se registrar ainda que em alguns casos da filmografia de Ford aparecem – além do toque melodramático – loas ao Exército e à sua cavalaria, esplendidamente exposta na sua “Trilogia da Cavalaria” (“Sangue de Herói”, 1948; ”Legião Invencível”, 1949; “Rio Bravo”, 1950); racismo em relação aos índios e, sempre, em relação aos mexicanos e mestiços (“Sangue de Herói” e “Rastros de Ódio”); criticas à estupidez inerente ao militarismo (“Sangue de Herói”); propaganda sutil ao espírito do “New Deal” e preocupações sociais (“No Tempo das Diligências”). E, até, uma bela epopeia sobre os antes execrados índios (“Crepúsculo de uma Raça’); retrato pungente da solidão humana (“Rastros de Ódio” e “O Homem que Matou o Facínora”).
Ford fez ainda outras apologias ao heroísmo da cavalaria, como foi o caso de “Marcha de Heróis”, 1959. Neste filme, onde há uma sequência memorável – a do ataque do batalhão de criança – o inimigo não é mais os selvagens peles-vermelhas, e sim os irmãos do Sul (ou melhor, os filhos dos irmãos do Sul), cujo heroísmo é empregado para defender uma causa, no mínimo, equivocada: a escravidão dos negros.
Sobre esse brilhante diretor e as voltas que dá o seu pensamento político-social, as idas e vindas da sua concepção “ideológica”, já presente em “No Tempo das Diligências”, fica bem mais pronunciado em “As Vinhas da Ira” (The Grapes of Wrath), 1940 – que já tinha despontado, de forma um tanto quanto tênue, em “O Delator” (The Informer), 1935.
Porém, essas guinadas de pensamento político – sempre presente em seus filmes, como sucede, via de regra, com quase todos os diretores americanos – não deve ser coisa de espantar, pois se tratava, e ainda se trata, de uma regra, jamais de uma exceção. Nos Estados Unidos – é bom realçar – cinema e divulgação do “American way of life” sempre se confundiram. Por isso é que me parece risível, para não dizer farisaísmo, quando acusavam os diretores soviéticos de terem feito propaganda do comunismo.
Mas, voltando a Ford e aos seus westerns, cabe registrar algo do que consta em um fascículo que acompanhou a coleção de vídeo “Os Clássicos do Cinema”, que a Edições Alfaya, de Barcelona, Espanha, fez distribuir no Brasil.
O fascículo a que nos reportamos é o de número 4, que acompanhou o vídeo de “No Tempo das Diligências”, onde são dadas algumas informações sobre a aventura do “rapaz Ringo” (Ringo Kid) e seus companheiros de viagem na diligência que serve ao título.
Por esse fascículo ficamos sabendo que esse trabalho de Ford foi contemporâneo de lançamento de grandes títulos da época, entre outros, “A Mulher Faz o Homem” – (Mr. Smith Góes to Washington) de Frank Capra; de “O Mágico de Oz” (The Wizar of Oz) de Victor Fleming; de “Ninotchka” – idem – de Ernest Lubitsch; “E O Vento Levou” (Gone With the Wind).
Concorrendo com todos esses filmes “No Tempo das Diligências” ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante, Thomas Mitchell – o mesmo que faria o papel do pai de Scarlett O’Hara em “E o Vento Levou”  – e de melhor trilha sonora – adaptação de 17 canções populares da fronteira americana. O elenco é dos melhores, Claire Trevor, John Wayne – bem jovem – John Carradine, Andy Devine, Donald Meek, Louise Platt, George Bancroft e Berton Churchill, além do premiado Thomas Mitchell, todos em boas apresentações.
O filme, mesmo com suas preocupações sociais, dentro do espírito do “New Deal”, não se exime de retratar seus clichês contra os índios e contra os mexicanos. Aliás, o cinema americano está repleto desses clichês, os quais são, em última análise, o retrato vivo do chauvinismo e da arrogância deles.
Entretanto, e apesar de Ford ter sido um dos maiores diretores do cinema americano e, sem dúvida, o mestre incontestável do western, não podemos ocultar ou excluir o caráter francamente propagandista de sua obra.
Utilizando-se de uma linguagem soberba, ou seja, fazendo uso de seu inegável talento, Ford – junto com Frank Capra – foi o diretor que mais exaltou o modo de vida americano. E com tal maestria que nos fez admirar uma política que só trouxe mazelas aos povos mais pobres do mundo.

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 3

POETA DO MÊS

Felix Arvers  foi um poeta e dramaturgo francês, que ficou mundialmente conhecido por um soneto, o "Soneto de Arvers", ou em titulação mais direta “Mistério e segredo”, publicado no ano de 1833, em Paris, no livro Mes heures perdues. Este soneto inspirou diversas traduções, peças e livros dedicados inteiramente ao seu desvendamento. É considerado pela crítica o soneto mais belo do mundo.
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Dança
Rafael Rocha-Recife/PE
Do livro “Poemas Escolhidos”

Aqui ao meu lado ainda dança a mulher antiga
trazendo na boca o sabor do inflamado beijo
quente como o sol do meio-dia em seu lampejo
e selvagem humana que em loucura tal periga.

Grito seu nome! Faz para mim ouvidos moucos
hoje quando preciso cada vez mais de pecado
e sentir o corpo suarento num coito demorado
e os beijos e carícias que nunca foram poucos.

Porém, partiu assim! Para onde foi essa moça?
Feminina peça a criar em mim tantas raízes?
A pespegar anseios de pecados tão felizes?

Olho a foto a restar da realidade toda nossa:
- Vejo o esquecimento do rastro de meus passos
e as marcas da paixão deixadas nos meus braços.

Cálido
Celso Mendes
Itapira/SP

e não ouvi
de tua boca
a seda
nem vi o sândalo
ou o céu
em teus olhos
a me falar de sol

por que, meu bem
minha palavra lacra-se
solitária
e muda
em tua cabeça
se é de teus dentes
o veneno
que me mata e grita
em gotas
e de tua pele
esta eterna
insolvência
cálida
que me faz viver?
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CARTAS DOS LEITORES

Espero que os responsáveis pelo jornal Humanitas mantenham a linha editorial. Essa publicação é ótima! Janice Lins – Jaboatão dos Guararapes/PE
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É um jornal pequeno, mas repleto de bons artigos. Gosto muito de lê-lo! Carlos Magno Silveira – Santos/SP
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Falta escrever sobre cinema. Qual articulista se dispõe a isso? Maria Carmencita Cerqueira – Salvador/BA
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Ótima publicação e com ótimos artigos. E com poesia ainda fica melhor. Silvia Olindina da Silva – Recife/PE

HUMANITAS Nº 54 – DEZEMBRO 2016 –PÁGINA 2

EDITORIAL

O renascimento do Sol

A história das festas que ocorrem no dia 25 de dezembro começou, na verdade, 7 mil anos antes da Era Comum. É tão antiga como a civilização.
Na época, tinha um motivo prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que ocorre na madrugada desse dia.
A partir dessa data, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para a luz: o “renascimento do Sol”.
Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava certeza de colheitas no ano seguinte.
Então, tudo era festa.
Na Mesopotâmia, durava doze dias. Os gregos aproveitavam o solstício para cultuar “Dionísio”, o deus do vinho e da vida mansa.
Os egípcios relembravam a passagem do deus “Osíris” para o mundo dos mortos.
Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza.
Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 antes da Era Comum para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.
Na Roma Antiga, o deus “Mitra” ganhou celebração exclusiva: o festival do “Sol Invicto”. Esse evento passou a fechar outra festa dedicada ao solstício: a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear “Saturno”, senhor da agricultura.
Depois, o cristianismo romano incorporou todos os festejos dedicados ao deus “Mitra”, seguindo as ordens do imperador romano Constantino (317-337 da Era Comum), criando e perpetuando, violentamente, através da cruz e da espada, o dia 25 de dezembro como sendo do nascimento de um outro ser mitológico agora chamado “Jesus Cristo”.
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Direito e sociedade - Tatiana Teles – Recife/PE (*)

Na sociologia jurídica muito se fala na ideia de aproximação entre Direito e Sociedade. Mas, na prática, o que se vê é que as normas não abrangem todas as situações cotidianas. Direito e Sociedade não teriam de andar de mãos dadas? Sim, sim. Diria o mais nobre pensador.
A eterna busca pela adequação entre o social e o jurídico não é algo novo. Seria “chover no molhado” constatar, por meio desse texto, o que parece óbvio para quem já pensou no assunto.
Entretanto, não podemos silenciar diante de fatos que levam ao interesse daqueles que criam, organizam e submetem às normas à população.
Recentemente, viu-se o fato do STF julgar pelo corte de salários daqueles funcionários públicos que fizeram greve.
Porém, sabemos que o estado de greve é um direito garantido constitucionalmente.
E que ele depende de uma regulamentação específica (no caso dos servidores públicos) que, vale dizer, nunca foi criada.
Os semideuses, diante das brechas, decidem ao bel-prazer.
O mesmo acontece com relação ao direito à comunicação. É livre a liberdade de expressão, conforme previsto na Carta Magna, desde que também haja lei específica. Cadê? “Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”.
E há quem ainda seja contra a regulamentação dos meios, sob o argumento de censura.
Regulamentar é mais do que primordial nos dias de hoje. É preciso que haja regionalismo, pluralidade de ideias e pensamentos.
O Direito abarca tudo? É, meus amigos, o Direito e a Sociedade há muito andam de mal. Devemos, assim, enfraquecer ideais? Jamais!
Quem sabe o uruguaio Eduardo Galeano pode comprovar a intensa busca sobre aquilo que nos move: “a utopia”.
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.
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(*) Tatiana Teles é jornalista formada pela Unicap/PE. Mora e atua no Recife/PE