segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PÁGINA 2


EDITORIAL

É Carnaval! É festa!

O Carnaval chegou!
No centro de tantas perspectivas inquietantes para o Brasil e para o mundo, o povo vai ter agora a oportunidade de substituir a tristeza pela alegria, nas ruas e nas avenidas, ao som do frevo, do samba, dos maracatus.
O Carnaval trará uma pausa refrescante, suada, sexual e etílica para que a população possa esquecer, nesses dias, o governo ou o desgoverno que tomou o poder através de um golpe de Estado judiciário/midiático.
O que se espera para este ano, logo depois que o Carnaval acabar, são coisas “para assustar frade de pedra”.
Porque, no Brasil, só depois do Carnaval é que as coisas começam a tomar formatos reais e, essas coisas, hoje, são horripilantes!
O Recife, Olinda e Pernambuco inteiro, porém, estão a postos para fazer com que tais sustos deem lugar às alegrias e às esperanças de renovação e que esse governo que não nos representa (porque não possui origem popular), seja defenestrado e enterrado sem honras, sem choros, sem velório.
É Carnaval!
Quem quer saber de governo ou desgoverno agora? Ainda que tal governo ou desgoverno esteja representado por traíras e salafrários da marca maior, a hora é de esquecer os problemas e de se entregar à folia.
Ninguém é de ferro!
O “Galo da Madrugada”, o “Homem da Meia-Noite”, “A Mulher do Dia”, os maracatus, os frevos, os sambas estão a postos no Recife, em Olinda e em todo Pernambuco, enaltecendo a vida.
Quando acabar a festa, voltaremos a nos preocupar com as coisas que estão a nos afetar.
Hoje, o Rei Momo é nosso governante!
Apareçam as ninfas dos amores casuais! Abram-se as garrafas de cervejas! Preparem as bocas para os beijos molhados e lúbricos!
Vamos frevar e sambar!
Carpe diem!
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Ensinamento imoral
Christopher Hitchens (1949/2011) - Jornalista

Para ser um cristão você precisa acreditar que por 100 mil anos a espécie humana sofreu e morreu; muitas crianças morreram no parto, e outros seres humanos morreram vítimas da fome, das doenças e nas guerras.
Tudo isso durante 100 mil anos, “enquanto o CÉU observava em completa indiferença”. Então, há dois mil e poucos anos, o CÉU decidiu: “já chega disso, acho que é hora de fazermos algo”.
A melhor maneira de fazer algo seria condenar alguém a um sacrifício humano em algum lugar da região menos instruída do Oriente Médio. “Nada de alcançar os chineses. Na China, as pessoas sabem ler, estudar evidências e são civilizadas. Vamos ao deserto e façamos uma revelação lá”.
Então, inventaram um Cristo e fizeram o sacrifício humano para salvar o homem dos seus pecados.
Isso não faz sentido. Alguém que saiba pensar não pode ser partidário das ideias criadas pelos cristãos. O ensinamento do cristianismo é o mais imoral de todos: “o da redenção vicária”.
Você pode jogar os seus pecados em outra pessoa, o que é vulgarmente conhecido como ter um bode expiatório. Eu posso pagar a sua dívida se eu amo você. Eu posso ir para a prisão no seu lugar se eu lhe amar muito. Eu posso me voluntariar a isso.  
“Mas eu não posso lhe redimir dos seus pecados, porque eu não posso abolir a sua responsabilidade, e eu não deveria me oferecer para fazer isso”. 
A sua responsabilidade precisa permanecer com você. Não existe redenção.
Isso consegue até poluir a questão central, a palavra que eu acabei de usar, a palavra mais importante de todas: a palavra amor, ao tornar o amor compulsório, ao dizer que você tem que amar.
Você tem que amar ao seu vizinho como a si mesmo, algo que você na verdade não consegue fazer. “Você sempre acabará falhando, então sempre poderá ser considerado culpado”. O cristianismo também diz que você tem de amar alguém a quem você também precisa temer.
Esse alguém é um ser supremo, um pai eterno, alguém de quem você deve ter medo, mas também deve amar. E se você falhar nessa tarefa é um pecador imundo.
Isso não é sadio. “É um sistema totalitário”. Existindo um deus eterno e imutável, que possa fazer e exigir tais coisas, então viveríamos sob uma ditadura.
Uma ditadura que nunca desaparecerá. Uma ditadura que sabe tudo o que pensamos e que pode nos condenar por crimes de pensamento e a uma punição eterna por ações que nós estamos fadados a tomar desde que nascemos.

domingo, 22 de janeiro de 2017

HUMANITAS Nº 56 – FEVEREIRO DE 2017 – PRIMEIRA PÁGINA



O CARNAVAL ESTÁ NAS RUAS!

É tempo de Frevo! É tempo de Maracatu!
Tempo de ir ao Galo da Madrugada!
Tempo dos amores casuais!
Evoé, Baco!

A mais alucinante festa do Recife e de Olinda, em Pernambuco, vai levar milhares de pessoas às ruas dessas cidades neste mês de fevereiro. Mais uma vez o tradicional Frevo marcará presença e a população mostrará sua criatividade nas fantasias e nas sátiras políticas. O O Galo da Madrugada, o maior bloco de Carnaval do mundo, abrirá oficialmente os festejos no dia 25 de fevereiro. (PÁGINA 8)
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Na PÁGINA 7, o médico Antonio Carlos Gomes comenta o olhar da traição
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James Vasconcelos Mesquita e Ivo. S. G. Reis, acadêmicos de Filosofia do CCHS da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul dissertam, na PÁGINA 6, sobre a retirada da Filosofia da grade do ensino médio
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O Refúgio Poético deste mês, sempre na PÁGINA 3, é dedicado a criações poéticas sobre o Carnaval
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O premiado escritor Araken Vaz Galvão Sampaio volta a falar de cinema na PÁGINA 5 deste Humanitas


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 8

Brasil: um país fundado
no ventre de mulheres nativas e africanas

Especial para o Humanitas
Durval Arantes é professor e autor do livro O Último Negro – Editora Vermelho Marinho. Mora em São Paulo/SP

Ele era da “principal nobreza de Viana do Castelo” (Portugal); ela, filha de um cacique tupinambá…
Diogo Álvares Corrêa foi um explorador português que sobreviveu a um naufrágio, na costa do litoral baiano, por volta do ano de 1510. Já habitante entre os nativos, passou a ser chamado de “Caramuru”.
Foi, muito provavelmente, o primeiro homem europeu a constituir um casal extra-étnico em terras brasileiras.
O Brasil foi “descoberto” no ano de 1500 (outra balela eurocêntrica, pois os núcleos populacionais aqui encontrados pelos colonizadores já habitavam o território brasileiro havia pelo menos 9 mil anos!).
A vinda de mulheres europeias de forma sistemática só se consolidou a partir do ano de 1550, na época em que Tomé de Sousa foi nomeado o primeiro governador do Brasil. Ainda assim, eram em número muito baixo as moçoilas de Portugal, educadas sob as premissas e o rigor dos tabus dogmáticos do catolicismo.
Nos primeiros anos da exploração europeia sobre o Novo Continente, o deslocamento entre a costa oeste africana e a costa leste do Brasil durava de 35 a 40 dias e as tripulações eram compostas exclusivamente por homens. Ao desembarcaram em terras novas, os navegantes estavam ensandecidos pela abstenção sexual e, diante da visualização da nudez natural de meninas, moças e mulheres indígenas, é possível especular sobre os horrores passados pelo contingente feminino habitante dos novos territórios encontrados.
As primeiras embarcações dos navios tumbeiros trazidos da África começaram a chegar ao longo da costa brasileira por volta de 1526.
Isso significa considerar que as meninas, moças e mulheres africanas eram estupradas e violentadas rotativamente (ou seja por mais de um membro de uma mesma tripulação) por mais de um mês em alto mar.
E (se sobrevivessem ao infortúnio), passavam a ser violadas também em terra firme, após serem vendidas como mercadorias nos leilões escravagistas da época.
Seguramente este cenário deve ter se mantido razoavelmente no mesmo padrão por pelo menos uns 200 anos da História do Brasil, ou seja, mesmo após o estabelecimento consolidado das mulheres eurocêntricas em território nacional.
O que dá robustez à interpretação de que o Brasil, enquanto Estado, País, Pátria e Estado, foi concebido sob a instituição do estupro, do sexo violento, da miscigenação coercitiva (…), da mistura étnica mais abusiva do que consentida.
E que, pela perspectiva do olhar masculino europeu, lançou as bases dos estereótipos e fetiches sexo-pejorativos e sexo-infames associados às mulheres nativas e de descendência africana em terras tropicais.
As mazelas deste início questionável da civilização brasileira podem ser sentidas nas investidas do “turismo sexual” europeu, que ainda assola a costa brasileira de norte a sul do país, em pleno século 21.
No tocante às mulheres negras, entendo que nós homens (principalmente os homens negros) precisamos nos alinhar à luta delas, naquilo em que elas entenderem ser o nosso melhor tipo de apoio, para que construamos uma comunidade forte, representativa, coesa, unida e vitoriosa, a partir da blindagem da dignidade e do valor intrínseco de cada uma das nossas meninas, moças, mulheres e anciãs do nosso eixo étnico. Manos, mãos à obra. Já passou da hora!

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Extraído de http://www.mundonegro.inf.br/

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 7

Até quando o planeta vai durar?
Especial para o Humanitas
Ana Maria Leandro - uma das principais colaboradoras do Humanitas -  é escritora e jornalista. Atua em Belo Horizonte/MG

Fico pensando no que é que ficamos esperando a cada fim de ano.
Um “novo ano”? O planeta formou-se há 4,56 bilhões de anos e a vida surgiu na sua superfície um bilhão de anos depois.
É incrível como o homem não percebe que o poder de mudanças na própria vida está nele mesmo. Aliás, muitas das mudanças da natureza acontecem, muito mais por consequência dos próprios desatinos do homem.
Encharca o mar de quinquilharias e não quer que ele as devolva em fortes marés; mata os peixes e tira assim outra fonte de alimentação, quando se a espécie fosse usada apenas dentro da cadeia alimentar natural, não se extinguiria.
Faz escavações de minas para extração de minérios e depois se vê assolado pelo derrame das terras que as continham, invadindo rios e mares e exterminando seres vivos aquáticos e terrestres. Canaliza rios e se vê inundado por arrebentações de canais em épocas de cheias.
Entope o ar natural com uma infinitude de gases artificiais, e depois reclama de males da saúde e das dificuldades respiratórias... 
Bem! Impossível conseguir falar de “todas as mudanças” que o homem provoca, por irresponsabilidade, por ganância financeira, por ignorância das reações da natureza!
Mesmo assim, vamos às praias jogar “flores a Iemanjá” para que ela nos dê mais prosperidade para o novo ano.
Ao que parece, se ela existe, parece que não gosta de flores. Nem que sujem o mar...
E se algum pedido feito em nome dela foi realizado, podem ter certeza; foi por ação do próprio ser humano.
O “calendário humano” foi escrito por “seres humanos”.
A natureza não faz calendário, ela mantém a terra girando em torno do sol.
A Terra vai variando ângulos entre dias e noites, exatamente por esse efeito giratório.
A noite não é mais perigosa que o dia em função da natureza, mas em função do homem, quando usa as trevas para nela se esconder e praticar atos ilícitos.
E hoje poderá ser melhor ou pior do que amanha, depende do que fazemos no agora.
Sementes plantadas sempre vicejam os frutos de sua espécie.
E os fantasmas? Bem, os fantasmas somos nós mesmos, criados em nossas mentes.
Neste aspecto, considerando-se que o homem faz parte da natureza, aí então sim, sua natureza pode criar o que quiser, inclusive “monstros”, que o assolam por razões de uma mente que tem medo de si mesm e do que é capaz de fazer. E muitas vezes o faz...
Não há, ainda, condições de previsão do fim “deste nosso pequeno planeta”.
A ciência considera que é possível um fim naquilo que envolve um ou vários planetas.
A Terra é apenas um pedaço da explosão que ocorreu há mais de 4,56 bilhões de anos, portanto, nada absurdo considerar que de novo podemos ter uma terra se estilhaçando num novo “big-bang”. Preocupados com isso já existem terráqueos procurando um jeito de irem para outro planeta (“projeto Mars One ou Marte Um”).
A ciência diz que guerra nuclear, pandemia viral, mudança climática: a suposta profecia maia do fim do mundo não será cumprida, mas o Apocalipse já começou e a agonia será lenta, alertam os cientistas. "A idéia de que o mundo acabará subitamente, por uma causa qualquer, é absurda", declarou David Morrison, cientista da NASA e especialista da vida no espaço. Mas enquanto estamos aqui, melhor que procurássemos nossa transformação interior, aquela que pode ser menos egoísta, mais unida e solidária uns com outros.
Necessitamos de vivência melhor na Terra e nosso planeta só será um lugar bom se tomarmos consciência disto.
Excesso de abastança para uns, enquanto outros passam fome é, sem dúvida, o mal que somente nós, seres humanos, podemos resolver com uma consciência mais igualitária, pois o fim será o mesmo para cada um de nós.

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 6

A intolerância religiosa leva o homem à barbárie

Especial para o Humanitas
Rafael Rocha jornalista, poeta e editor-geral deste Humanitas. Mora no Recife/PE

A intolerância religiosa é um dos problemas mais delicados de hoje no mundo.
O fanatismo religioso está entranhado no cérebro de milhões de pessoas o que faz com que elas realizem verdadeiras guerras umas contra as outras, em nome de qualquer deus ou religião, como se com isso possam estabelecer qual deus e qual religião “têm razão”.
A questão é complicada e termina por levar o ser humano à barbárie, na medida em que são colocadas em jogo a consciência humana e as crenças.
Na realidade, existe uma grande falta de bom senso e de respeito mínimo à diversidade e à livre escolha, e isso cria e fortalece situações de caos e violência em todos os lugares do mundo, e também no Brasil.
Tais fatos são decorrentes de divergências que levam um ser humano, inconformado com a consciência e a crença de outro ser humano, a tentar impor a sua própria consciência e crença. Um fato absurdo e sem razão.
Uma ação que ofende a liberdade fundamental de cada pessoa.
A Constituição do Brasil, em seu artigo 5º, inciso VI, diz que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e às suas liturgias.
Os cultos religiosos de matriz africana são considerados como os mais discriminados no Brasil, ainda que existam leis específicas na Carta Magna a proteger seus seguidores, tal como a Lei nº 12.288/2010 (“Estatuto da Igualdade Racial”).
O legislador preocupou-se em resguardar as liberdades de cada indivíduo, inclusive com relação às diferenças humanas de consciência e de crença. Também se preocupou em combater a disseminação do ódio entre as pessoas, fundado em intolerância religiosa, tal como consta na Lei nº 11.635/07 que ainda instituiu o dia 21 de janeiro como o “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa”.
Todas as pessoas e suas respectivas religiões e os sem religião merecem proteção e respeito, mas o que se nota em nosso país é um fundamentalismo cristão, defendido pelas igrejas cristãs neopentecostais, a caminhar na senda da intolerância, adotando uma postura de violência contra quem não segue as suas doutrinas.
Portanto, se for para seguir ao pé da letra o que diz a Constituição da República Federativa do Brasil ou a legislação que assegura a liberdade de crença religiosa às pessoas, devemos levar em conta que, além de proteção e respeito às manifestações religiosas, a laicidade do Estado deve ser buscada, afastando a possibilidade de interferência de correntes religiosas em matérias sociais, culturais e políticas etc.
Todos os livres pensadores têm o dever de estar nessa luta de aperfeiçoamento da tolerância às diferenças, pois isso é uma ação indispensável no regime democrático.
Fazendo valer a laicidade do Estado estaremos preservando direitos humanos fundamentais.
Desde a chegada dos portugueses ao Brasil que existe a intolerância religiosa.
Exemplo disso foi a clara intenção dos colonizadores lusitanos de converter, à força, os índios e os escravos ao catolicismo.
Ao longo dos séculos essa ideia parece ter sido perpetuada, tanto que na selva amazônica ainda existem grupos de evangelizadores catequizando índios e ajudando a que estrangeiros ocupem suas terras, com o apoio do fundamentalismo neopentecostal, que se prepara aos poucos para tomar o poder no Brasil, fato que pode levar o nosso país a regredir cultural e politicamente.
O combate à intolerância tem de receber apoio de setores os mais diversos da sociedade organizada.
É preciso que exista uma imprensa ativa e nunca manipuladora, canais de participação e de acesso às denúncias feitas pela sociedade e nas escolas públicas uma educação religiosa de cunho científico.
Essa educação religiosa nas escolas brasileiras não pode ser entregue às igrejas e às seitas particulares.
Deve, sim, ser um assunto de caráter científico, que transmita ideias vindas dos resultados de estudos. E que esses estudos das religiões que existem e que existiram no planeta desde séculos sejam honestos, para conhecer e saber quais os dogmas e o que pregam seus dirigentes e seguidores.
Nada de catequese! Nada de lavagem cerebral! 

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 5

O poder sexual como ferramenta de libertação

Especial para o Humanitas
Texto extraído de   www.thomasdetoledo.blogspot.com.br
Thomas Henrique de Toledo Stella é professor e  historiador. Mora  em São Paulo/SP

Todos sabem que vivemos em um mundo doente, mas muito poucos conseguem identificar que a causa desta doença está na forma como as religiões monoteístas e o capitalismo ensinaram as pessoas a lidarem com o sexo e a sexualidade.
A energia sexual é a força mais poderosa que o ser humano possui e ela é a responsável por toda a vida existente no planeta. Aqueles que aprendem a utilizar esta energia são bem sucedidos, resolvidos consigo mesmo, por que aprenderam a lidar com o próprio poder pessoal.
Diferente do que ensinam, o poder não corrompe, o que corrompe é exatamente a falta de poder, que leva as pessoas a criarem barreiras, mecanismo de autodefesa e muralhas sentimentais para esconder os traumas vividos na infância e na adolescência. Esta falta de empoderamento pessoal torna as pessoas vulneráveis e guiadas para seguirem o que consciências externas lhe ordenam, objetivando tornarem-nas funcionais aos interesses religiosos e econômicos.
As religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) consideram o sexo como uma depravação e, visando impor o patriarcado, reprimiram brutalmente a sexualidade feminina. O patriarcado tem um sentido histórico claro: a manutenção da propriedade privada dos meios de produção sob o controle masculino. Com isto, não apenas as mulheres foram proibidas de tomar contato com seu poder sexual, como o homem foi obrigado a reprimir qualquer vestígio de sua energia feminina. Energias masculina e feminina não se resumem à sexualidade.
Homens e mulheres possuem seus lados femininos e masculinos, mas ambos são obrigados por fatores culturais a serem masculinizados e se relacionarem de forma prática, objetiva e agressiva.
Ou seja, de forma masculina.
Assim, da repressão sexual religiosa, desponta-se o outro extremo da alienação sexual, que é a pornografia e o sexo mecânico, vulgar, baseado unicamente no visual e no objetivo final da ejaculação.
A pornografia encontra no funk sua reificação: o sexo é praticado de forma automática, como se fosse realizado na linha de produção de uma fábrica, no típico estilo de “Tempos Modernos”.
Ou seja, como tudo o que o capitalismo produz, o sexo é transformado em mercadoria na qual a mulher é simplesmente um objeto a ser perseguido para satisfazer os níveis mais básicos de prazer.
Há níveis muito mais elevados de se trabalhar de forma expansiva a energia sexual, que não se resumem ao roteiro hollywoodiano de sedução-conquista-penetração-gozo.
A busca pelo orgasmo através do simples bombeamento do falo é um modelo perverso de limitação do poder pessoal e de mecanização sexual.
O sexo poderoso e sublimador precisa de magia e encanto e para isto há muitas ferramentas como o olhar, a respiração, os toques em diferentes níveis e os distintos graus de contato, em busca dos pontos de liberação de energia.
Mas para se alcançar este nível de maturidade, é preciso integrar, independentemente da orientação sexual, as polaridades masculina e feminina, tanto no homem quanto na mulher, rompendo padrões de preconceito social e historicamente impostos.
Quando se deixa a dicotomia repressão sexual x pornografia, redescobre-se o sexo como a fonte de energia para todas as tarefas práticas e objetivos de vida.
As fantasias e desejos sexuais estão associadas a traumas e momentos de alegria vividos, pois elas são formas de se abstrair e sublimar experiências. Quando se pratica o sexo sadio, consciente e sagrado, tudo isto é compreendido e os obstáculos que prejudicaram a evolução pessoal passam a ser olhados com compaixão e amor, resultando na cura.
Deste modo, se integra a experiência dolorosa à história pessoal de forma respeitosa, compreendendo que o caminho do guerreiro é de vencer a si mesmo, antes de tudo. Por isto, hoje compreendo por que o Tantra é chamado de a suprema consciência.
A cura do planeta e de todos os seres humanos está no reconectar ao caráter sagrado do sexo como ferramenta de poder pessoal, autoconhecimento e evolução pessoal.
Mas isto exige, acima de tudo, romper com as crenças arraigadas impostas pela religião e pelo sistema, que sempre objetivaram tornar os seres humanos cativos a seus projetos de poder. Libertem-se e deixem fluir o poder da vida! Conheçam os mistérios milenares do Tantra.

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 4

O neurocirurgião que acha que 
não precisa do seu córtex cerebral
Texto extraído de http://www.suzanaherculanohouzel.com/

Especial para o Humanitas
Suzana Herculano-Houzel é uma neurocientista brasileira. Atua no Rio de Janeiro/RJ

O neurocirurgião norte-americano Eben Alexander III, acometido de uma meningite bacteriana, passou uma semana em coma, quase morreu.
Mas ficou para a contar a história de suas experiências extracorporais durante o coma, no livro “Uma Prova do Céu”.
O pequeno detalhe, que o colocou no programa Fantástico da TV Globo, e na lista dos livros mais vendidos, é que ele, convencido de que seu córtex cerebral estava “inoperante” durante a semana de experiências em coma, concluiu que “o cérebro não é necessário para a consciência”.
Eu li o livro todo (sou responsável pela revisão técnica da edição brasileira) e acho o relato dele muito interessante, importante, digno de livro e público - mas a interpretação dele é toda dependente de uma falácia gigantesca, enorme, colossal: a de que o “córtex dele estava morto” - como é que ele diz, mesmo? Silenciado, inoperante.
O problema é que ele não oferece “NENHUMA EVIDÊNCIA” no livro de que o córtex cerebral dele esteve de fato inoperante durante o coma. Não há qualquer menção a um “EEG”, por exemplo, que seria trivial de fazer, ou qualquer outro teste para avaliar o funcionamento de seu córtex enquanto sua mente vagava pelo “céu”.
O neurocirurgião simplesmente presume que, como estava em coma infeccioso, seu córtex estava “inoperante” - e que por isso suas experiências mentais durante o coma seriam “prova de que o córtex não é necessário para a consciência”
Ao contrário da sua conclusão sem qualquer base, comprovação ou fundamentação lógica, a explicação mais fácil e simples para tudo o que ele descreve é que justamente o córtex cerebral dele esteve, sim, funcional durante o coma, ainda que de maneira capenga e certamente prejudicada pela meningite - o que explicaria todas as experiências durante o coma. 
Não tenho qualquer ressalva a fazer a respeito das experiências que ele descreve. Acho importante sabermos que é possível haver experiências mentais durante um coma, sobretudo dado que hoje é conhecido que o coma não é uma coisa só, mas um estado temporário que pode ter origens e causas diversas, inclusive ainda com atividade cortical (há vários estudos a respeito - entrem no PubMed e busquem-nas).
Não há nada no livro que comprove que o Dr. Alexander tenha ou não tido contato com “o além”, mas esse não é o ponto importante aqui. Algumas pessoas gostarão da história e se identificarão com ela, o que é ótimo.
O problema, que fere todas as iniciativas de divulgação e educação do público sobre a neurociência, é que o autor joga qualquer espírito científico para o alto ao escolher forçar a mão e usar sua “autoridade de neurocirurgião” para concluir, sem qualquer evidência que sim ou que não, que seu córtex cerebral estava “completamente inoperante”, e portanto que o cérebro não é necessário para a consciência.
Se esse cirurgião tivesse recebido um pingo de formação em ciência, ele teria exigido de si mesmo algum teste de suas funções corticais antes de sair espalhando aos quatro ventos que tem a “prova científica” de que (1) “o céu existe” e (2) “a consciência não depende do córtex cerebral”.
Para ficar claro: depende, sim. Ou anestésicos que modificam a atividade do cérebro não seriam anestésicos. Ou a falta de oxigênio não levaria ao desmaio. Ou lesões do cérebro não teriam consequências imediatas e graves para a atividade mental.
Ou o neurocirurgião não teria sequer entrado em coma por conta de sua meningite... Por fim: você aceitaria ter seu cérebro operado por um neurocirurgião que está agora convencido de que seu córtex pode ser danificado, ou mesmo totalmente lesionado, sem nenhuma consequência, porque ele “não é necessário para a consciência”? Eu certamente não!
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PS. Se vocês olharem o expediente da edição brasileira da Sextante, verão meu nome como revisora técnica do livro. Por que aceitei fazer a revisão, se tenho essa crítica gigantesca ao livro? Aceitei porque acredito na liberdade de opinião e sei que muitas pessoas gostariam de ler a história desse neurocirurgião que agora acha que não precisa do seu córtex para ter consciência. Então quis contribuir para que a história chegasse até os leitores sem problemas técnicos na tradução. Só isso.
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NOTA DO EDITOR


Uma rede de TV brasileira exibiu algo sobre “vida após a morte”, focando o tema com as ideias do neurocirurgião Eben Alexander III, cujo livro sobre sua experiência de “quase morte”, lançado em 7 de outubro de 2014, se tornou best-seller.  Na sua fanfarronice o autor do livro diz que morreu, foi ao céu, viu os anjos e depois ressuscitou. O neurocirurgião ainda vai mais longe: faz pregação, fala em demônios, paraíso, e se mete no espaço e na física quântica, com descabidas divagações. O livro do Dr. Eben Alexander III é intitulado “Proof of Heaven: A Neurosurgeon's Journey into the Afterlif”" - ou “Provas da Existência do Paraíso: A Jornada de um Neurocirurgião na Vida Após a Morte”.  Esta sandice foi refutada pelo sério neurologista e escritor anglo-americano Oliver Wolf Sacks, renomado professor de neurologia e psiquiatria na Universidade de Columbia; assim como por Sam Harris, filósofo e neurocientista americano e pela comunidade científica. Mas o cara continua faturando em cima de um rebanho de ovelhas ingênuas e vulneráveis que, iludidas, esperam pelo que chamam de Boa Nova.

HUMANITAS Nº 55 – JANEIRO/2017 – PÁGINA 3

REFÚGIO POÉTICO
POETA DO MÊS

ARTUR AZEVEDO - Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo, jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís/MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a Cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena. Foi um dos grandes defensores da abolição da escravatura, em seus artigos de jornal, em cenas de revistas dramáticas e em peças.  Entre suas obras tem destaqueA Capital Federal”,  “A Moça mais Bonita do Rio de Janeiro” e outras.
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Lágrimas
Francisca Clotilde – Fortaleza/CE

Chora a noite sentida a lágrima tremente
Do orvalho que aviventa a flor abandonada.
Da estrela cai na terra a luz meiga e dourada,
O pranto do infinito em gota aurifulgente.

E o velho mar que anseia, o velho mar fremente
Com zelo vai guardar na concha nacarada
As bagas que arrancou-lhe a dor amargurada,
Irisando-as da luz na pérola nitente!

Tudo adoece enfim!... Tudo chora e se queixa,
Da brisa o ciciar tem, às vezes, da endeixa
A mágoa dolorida e o tristonho dulçor.

O regato suspira... Há soluços nas águas,
A palmeira estremece e um concerto de mágoas
A saudade mistura aos idílios do amor!
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Canção do exílio
Mário da Silva Brito – São Paulo/SP

Com a palavra construo um reino
e nele impero sem lei.
Neste mundo, que com o mundo
confina, sou senhor e servo.

No meu reino de luz e sombra
a palavra, vinda do caos,
fulge em brilho solitário
– solitário sol sem solo.

Busco a palavra, não o senso
(certo perdeste o senso!):
sarcófago pode ser amor
e amor quer significar morte.

Rodeado de palavras estou
– falsas palavras do mundo.
Entre o dicionário e o verbo
escolho uma gleba secreta.

Envolto de lustral amplidão,
cercado de nuvens e flores,
sou exilado e sou imperador,
sou Deus esculpindo o barro.
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CARTAS DOS LEITORES

A divulgação da verdade está nas mãos dos livres pensadores. Lamento que este pequeno jornal, grande no conteúdo, ainda não seja acatado no país como divulgador da verdade. A verdade deve ser conhecida e repassada, inclusive as mentiras religiosas e políticas. Falo por mim e pelos meus amigos que leem o HUMANITAS. Ainda que o formato seja pequeno este jornal tem a capacidade de ser grande e trazer belos artigos de pensadores humanistas. Parabéns a todos que fazem o HUMANITAS. Que esta publicação ultrapasse o tempo de sua história e continue a incutir na cabeça de seus leitores a verdade, nada mais que a verdade. Silvio Carlos de Oliveira – Fortaleza/CE
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Espetacular o HUMANITAS! – Pedro Rodrigues Arcanjo – Olinda/PE