segunda-feira, 2 de março de 2015

HUMANITAS Nº 33 – MARÇO DE 2015 – PÁGINA 8

Recife, uma cidade para poucos
Liana Cirne Lins – Recife/PE

Foram postas em ação no mês de janeiro de 2015 as medidas restritivas de acesso ao Recife Antigo, consolidando uma política de exclusão social assustadora e que pode ter graves repercussões éticas.
Vamos ligar os pontos?
Recife Antigo literalmente ilhado, com revista seletiva (leia-se, revista de negros e pobres) em todas as pontes de acesso. Proibição de comércio informal na área do Marco Zero, sem pipoqueiro, sem raspa-raspa. Transformação de uma área que seria parque público, com vista linda para o rio e o mar, em estacionamento e, ocasionalmente, em área de camarote ou shows privados. Várias tentativas de camarotização do nosso carnaval popular e de rua, felizmente frustradas pela sociedade civil.
Ligando os pontos, o desenho que surge é o de uma cidade com muitas cancelas e interdições.
A escolha do poder público por esse modelo de cidade para poucos, para a elite, é preocupante. Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo”, nos mostra que a perseguição aos judeus iniciou-se com essas cancelas. O ódio aos judeus começou criando uma ideologia de que os judeus não pertenciam ao mesmo ESPAÇO físico que os alemães.
É exatamente isso que está sendo promovido pelo governo do Recife: uma política higienista que quer convencer a classe média de que os pobres não podem dividir o mesmo espaço que eles.
Os Armazéns do Porto (espaço de lazer e gastronomia muito agradável, bonito e que atende a uma demanda que precisava ser contemplada), no lugar de promover INTERAÇÃO entre os públicos que já frequentavam o Recife Antigo com o público novo, mais rico, que chega agora a partir dessa nova oferta de lazer, está promovendo uma verdadeira cultura discriminatória, segregacionista e de intolerância para com os diferentes.
A mais do que indesejada violência que tem se alojado no bairro, com arrastões e brigas de gangue, poderia ser combatida com o serviço da Central de Inteligência da polícia, prevenindo e reprimindo quem de fato é criminoso, e não rotulando genericamente a população de classe baixa como potencial criminosa. Nem preciso dizer que outros serviços públicos, como assistência social, poderiam enfrentar a raiz do problema e acabar com a violência desde sua origem, pois algo está errado quando jovens veem na violência uma via de escape e de manifestação.
Uma política de segurança pública honesta, que garantisse a segurança e o conforto de TODAS as famílias e grupos sociais que pretendem ocupar o espaço do Recife Antigo, deveria ter outras premissas.
Mas a política de segurança pública escolhida pelo governo é mais um reforço de ideia de que A CIDADE NÃO É PARA TODOS, E SIM PARA POUCOS. Uma política de segurança que serve a um modelo de cidade higienista e racista.
Uma das premissas para entender direito à cidade é compreender que a forma como ocupamos o espaço da cidade é antes de tudo uma escolha ética sobre como vamos lidar com os outros e outras que ocupam conosco esse espaço.
A gentrificação em curso no Recife está sedimentando uma cultura de ódio e terror, em que o medo e o caos são amplificados para justificar excessos e exceções. Está na hora de começarmos a debater essa escolha ética.
Qual é a cidade que queremos?

***


Nota do Editor: gentrificação - fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas da composição do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda. Tal valorização é seguida de um aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos moradores de renda insuficiente para sua manutenção no local cuja realidade foi alterada.

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