segunda-feira, 5 de novembro de 2018

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 2

EDITORIAL
O RACISMO ESTÁ VIVO

No distante dia 20 de novembro de 1695 foi assassinado por tropas portuguesas o maior de todos os líderes negros do Brasil, Zumbi dos Palmares.
Ele foi um dos principais chefes do famoso Quilombo dos Palmares localizado na Capitania de Pernambuco, atual União dos Palmares, no estado de Alagoas.
O Quilombo era uma comunidade formada por escravos negros fugidos das fazendas, prisões e senzalas e tinha um tamanho quase igual ao de Portugal.
No seu auge, o quilombo abrigou mais de 30 mil pessoas.
Neste 20 de novembro de 2018, em homenagem a Zumbi, comemoramos o Dia da Consciência Negra e este HUMANITAS se junta a essa lembrança de lúta pela liberdade e igualdade dos negros e negras do Brasil.
Não devemos também esquecer a companheira de Zumbi, Dandara, com quem ele teve vários filhos.
Ela dominava técnicas de capoeira e participou das estratégias de defesa do quilombo. Dandara foi uma mulher guerreira e de ação.
A luta continua ainda hoje. Não somos o país da democracia racial como afirmava o sociólogo Gilberto Freyre. O racismo continua vivo.
Milhares de jovens negros entre 15 e 29 anos, são assassinados por ano no Brasil e as suas mães estão nas periferias de nossas cidades como trabalhadoras exploradas.
Pelo visto, a escravidão não acabou. É premente que continuemos a lutar contra o racismo e também contra o feminicídio das mulheres negras.
 Necessário refletir mais profundamente sobre as questões raciais e a situação do povo negro no Brasil e no resto do mundo.
A história da negritude no Brasil é a história da resistência contra o poder da Casa Grande.
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O HOMEM TRANSGÊNICO
Gilberto Nogueira de Oliveira - Nazaré/BA

Zé Vaqueiro e sua família foram viver na cidade grande, e alegaram que queriam ficar mais perto dos médicos, pois a saúde de todos não andava muito bem.
Ao chegarem à cidade, foram vacinados contra a gripe. A vacina veio de um laboratório americano e lhe garantiram que era “tiro e queda”.
Disseram que a vacina foi feita com experiências em cavalos. Zé Vaqueiro não entendeu muito bem, mas mesmo assim se vacinou e sua mulher também.
Depois apresentaram a ele uma mistura estranha de soja. Ele comeu e gostou.
Em seguida apresentaram ao milho. Tinha grãos grandes e vistosos. Ele comeu e gostou.
Logo sua mulher conheceu um vizinho. Era o homem trifásico. Ela comeu e gostou.
Certa noite, Zé Vaqueiro sonhou com sua antiga boiada.
Quando acordou, ele sentiu um negócio estranho na testa. Tinha forma e textura de uma coroa de abacaxi. Ao virar-se, sentiu uma coisa no traseiro.
Passou a mão e constatou que era um rabo. Tinha se tornado um veado.
Lembrou que a soja e o milho tinham um leve gosto de plástico, mas bem temperado com conservantes, até que ficou gostoso. Tinha procurado o vizinho que lhe disse que era moda aquelas comidas e ele logo aderiu.  
Ao chegar em frente ao espelho, teve uma surpresa: no nariz, um tomate; no rosto e cabeça, capim humidícola. Na barriga, uma melancia; entre as pernas, banana; nos pés e nas mãos, patas.
No cérebro, uma grande necessidade de voltar ao campo para pastar capim orgânico.

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 3

REFÚGIO POÉTICO – CARTAS DOS LEITORES – TESTE DE XADREZ

Soneto
Gomes Cardim (1865/1932)
Porto Alegre/RS

Quando no oceano o sol mergulha, quando
São de ouro as aves, e de chama os lagos,
Vejo envoltas de luz, em mil afagos,
As pombas que, uma a uma, vêm chegando.

E logo surgem os implumes, vagos,
Trêmulos todos, estendendo ao bando
Os biquinhos abertos, implorando
Os beijos maternais, de efeitos magos.

Mas hoje embalde vi chamar... chamar...
Um flébil, triste e pequenino par:
- Não voltara um casal, que aos prados fora.

Então lembrei-me de que tinha outrora
Um lar dileto... e que também agora
Choro os que foram para não voltar.

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Meu desejo
Leodegária de Jesus (1889/1978)
Caldas Novas/GO

Não quero o brilho, as sedas, a harmonia
Da sociedade, dos salões pomposos,
Nem a falaz ventura fugidia
Desses festins do mundo, tão ruidoso!

Prefiro a calma solidão sombria,
Em que passo meus dias nebulosos;
Sinto-me bem, aqui, à sombra fria
Da saudade de tempos mais ditosos.

Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.

Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro.
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CARTAS DOS LEITORES

O HUMANITAS é uma publicação que merece elogios. Seus idealizadores estão de parabéns. Traz textos que poucos jornais publicam com temas e assuntos que são ignorados pela Grande Mídia. Ricardo Almeida – Recife/PE
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Com o chimarrão ao lado e o HUMANITAS na mão vivo momentos especiais de lazer, ganhando cultura e conhecimentos variados. Adoro as poesias que o HUMANITAS divulga, bem como seus autores – Carmen Araújo – Porto Alegre/RS
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FRASE DO MÊS

“É tempo de tornar a tarde de novembro uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa”. Machado de Assis
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Resultado do teste de xadrez do mês de outubro de 2018:
Xadrez jogam negras e ganham
1. Txg2+ Cxg2
2. Txg2+ Rxg2
3. Cg5+ Rg1
4. Ch6++

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 4

OS CORPOS NEGROS: A HERANÇA DO PASSADO,
OS DESAFIOS DO PRESENTE

Aline Cerqueira é historiadora. Atua em Salvador/Ba

Desde o início da escravidão negra no Brasil Colônia que já se manifestava uma violência real e simbólica sobre as mulheres negras. Elas possuíam limitações sociais de todos os tipos, com seus corpos sendo marginalizados e vivendo sobre o domínio do patriarcado. Elas satisfaziam as necessidades sexuais dos seus senhores.
A escravidão negra durante o período colonial e até mesmo no Brasil Império foi marcada pelo “poder do macho” e pela subordinação sexual e moral da mulher negra.
Muitas mortes, ciúmes, traições e a marginalização dos corpos negros aconteceram, fato que continua a ocorrer ainda hoje, pois o Brasil é um país racista, machista e sexista. As mulheres negras continuam submissas ao legado do patriarcado e sendo vistas como objetos sexuais.
O desejo de possuir prazeres e envolvimentos sexuais com uma mulher negra é constante em nossa sociedade, e isso evidência preconceitos de gênero e de raça.
Um exemplo disso são os jogadores de futebol negros. Podemos contar nos dedos das mãos aqueles que se casaram e tiveram filhos com mulheres negras.
Os grandes milionários do futebol buscam sempre justificar sua posição econômica e social, casando com as mulheres brancas, seguindo a ideia de que as mulheres brancas são para casar.
Tudo isso está ligado ao imaginário social do patriarcado, que qualifica a mulher negra e a mulher branca.
Esse é um dos muitos exemplos que podemos citar, entre outros.
A “sociedade brasileira é racista” e cria uma imagem estereotipada das mulheres negras.
Aos olhos dos homens brancos nosso comportamento é sexualizado, quase que servil – e isso é a reprodução de uma concepção da escravidão negreira.
Essa herança é machista e sexista, pois dentro dela criou-se a ideia de que os negros são pessoas de segunda categoria.
A mulher negra é vista como objeto sexual, como uma fêmea fogosa, fácil.
Por sua vez, as mulheres brancas são vistas como “belas, recatadas e do lar”.
A historiadora Ângela Figueiredo, no livro Dialogando com os estudos de gênero e raça no Brasil” afirma que durante a escravidão, os negros não eram donos do seu corpo e nem da sua sexualidade.
Construído pelo discurso do outro, o corpo negro esteve sempre associado a aberrações e, consequentemente, a sexualidade negra sempre é relacionada a algo animalesco, descontrolado e violento. Tais estereótipos gerados pelos grupos dominantes da raça branca foram responsáveis pela disseminação dessa mentalidade.
Neste Século XXI, a mulher negra precisa resistir e afirmar o seu empoderamento. Marginalizada durante séculos, hoje a mulher negra começa a aceitar seu corpo e a lutar por ele. Estão a se tornar politizadas, buscando a sua auto-estima negra e apresentando-se pronta para desconstruir essa imagem negativa criada e cultivada pelo patriarcado branco..
É necessário combater o racismo e o sexismo e reinventar a imagem do corpo negro.
   Descontruir o olhar dos brancos e se afirmar enquanto mulher negra, construindo novos valores é uma tarefa que precisa ser praticada constantemente.

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 5

A RAINHA NEGRA QUE DESAFIOU PORTUGAL

Especial do Humanitas

Aconteceu no Século XVIII! Uma negra desafiou a coroa portuguesa e o sistema escravocrata por mais de vinte anos. O nome dela era Tereza, e ficou conhecida na história da luta das mulheres negras como a “Rainha Tereza de Benguela”, por comandar a maior comunidade de libertação de negros e indígenas da capitania de Mato Grosso.
Dificilmente, alunos das nossas escolas vão encontrar o nome dessa mulher nos livros da “história oficial”, nem que seja por alto ou de forma rápida. A “história oficial” relega ao esquecimento os verdadeiros mártires da liberdade. A “história oficial” é escrita pelos donos do poder.
Na época do Brasil/Colônia existiram vários núcleos de resistência ocupados por negros em fuga da escravidão, indígenas e brancos pobres. Foram denominados de quilombos e seus habitantes de quilombolas ou mocambeiros. Esses nomes aparecem na documentação oficial desde o século XVI, mas todos seus integrantes eram considerados foras da lei pela poder dominante.
O quilombo mais conhecido entre nós é o de Palmares, e se localizava na Serra da Barriga, Alagoas. Este quilombo foi considerado por muitos especialistas um “estado africano no Brasil”, e por outros como a “República de Palmares” devido à sua extensão territorial.
Seu líder, “Zumbi dos Palmares”, foi decapitado, mas a historiografia não sabe precisar ao certo como ocorreu a sua morte.
“Zumbi dos Palmares” faleceu no dia 20 de novembro de 1695. Por isso, o “Dia da Consciência Negra” é comemorado nesta data, com a finalidade de homenagear toda a população negra que lutou bravamente pela libertação do açoite, que liderou levantes em busca da liberdade e que construiu o patrimônio social e cultural brasileiro.
Mas quem foi Tereza de Benguela? A “Rainha Tereza”, como ficou conhecida em seu tempo, viveu no século XVIII no Vale do Guaporé, no Mato Grosso.
Ela liderou o Quilombo de Quariterê após seu companheiro José Piolho ser morto. Segundo documentos da época, o quilombo abrigava mais de 100 pessoas, com aproximadamente 79 negros e 30 indígenas e resistiu da década de 1730 até o final do Século XVIII.
A liderança de Tereza ganhou destaque com a criação por parte dela de uma espécie de Parlamento e de um sistema de defesa no quilombo. Ali se cultivava o algodão, que servia posteriormente para produzir tecidos. Mas também existiam plantações de milho, feijão, mandioca, banana, entre outros.
Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade negra que lá se refugiava eram transformados em instrumento de trabalho, visto que dominavam o uso da forja.
Tereza de Benguela foi a líder de um levante de negros e índios, instalando-se próximo a Cuiabá, não muito longe da fronteira com a atual Bolívia. Durante décadas, ela esteve à frente do quilombo, o qual sobreviveu até 1770, século XVIII. Foi morta após ser capturada por soldados no ano de 1770.
Documentos da época afirmam que: “em poucos dias expirou de pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”.
No Vale do Guaporé, “Rainha Tereza” coordenava a estrutura administrativa, econômica e política da comunidade, garantindo a segurança e a sobrevivência de mais de 100 pessoas, entre negros e indígenas. Nos dias de hoje, junto com outras tantas lideranças femininas que ressurgem por causa da luta de alguns historiadores que as retiram do esquecimento oficial, Tereza tornou-se um símbolo de liderança, força e luta pela liberdade.
A história de Tereza de Benguela demorou a ganhar projeção. Passados quase 250 anos, o reconhecimento começa a aparecer.
Uma lei aprovada em 2014 pela presidente Dilma Rousseff instituiu o dia 25 de julho como o “Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra”.
A luta de Tereza de Benguela ainda não está perto de terminar. Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que ser mulher negra no Brasil significa sofrer intensa desigualdade.
Os três séculos de escravidão no Brasil, que só teve fim por conta da brava resistência dos negros escravizados, deixaram marcas profundas.
Tão profundas que, apesar da posse do corpo ter acabado, a discriminação ainda persiste.
No trabalho, 71% das mulheres negras estão em ocupações precárias e informais, contra 54% das mulheres brancas e 48% dos homens brancos.
O salário médio da trabalhadora negra continua sendo a metade do salário da trabalhadora branca. Mesmo quando sua escolaridade é similar à escolaridade de uma mulher branca, a diferença salarial gira em trono de 40% a mais para esta.

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 6

A MULHER QUE INVENTOU O CINEMA
Especial do HUMANITAS

A primeira onda do movimento feminista começou no início do Século XIX.
Muita gente desavisada alega que isso é falso, talvez porque nunca se falou tanto em feminismo como nos últimos anos.
Vejamos isso na historiografia do cinema.
A história oficial alega e ensina que os irmãos Lumiére e Thomas Edison registraram as primeiras imagens em movimento.
Tudo isso é verdade. Mas foi uma mulher a pioneira no uso de uma câmera para contar histórias.
Alguns irão aparecer discordando e dizendo que Georges Méliès foi o primeiro diretor de cinema narrativo, com suas produções de ficção científica e fantasia.
Esqueceram de salientar que enquanto Méliès sonhava com mundos mágicos e truques, uma mulher francesa chamada Alice Guy-Blaché já comandava um set, e fazendo o feminismo na tela grande.
Alice foi a primeira cineasta do mundo.
Numa época em que as mulheres eram relegadas a um plano inferior ela revolucionou a imagem cinematográfica.
Um dos seus primeiros trabalhos foi o curta-metragem Les Résultats du féminisme”, que data de 1906, cuja trama ocorre em uma realidade onde aos homens são reservados os afazeres domésticos e as ideias românticas dos relacionamentos, enquanto as mulheres é que passam horas nos bares e cafés após largarem do trabalho.
Alice ainda abriu portas em defesa das mulheres e dos seus direitos nos seus filmes. Ela era ousada e, além de apresentar os papéis das mulheres, levou aos seus filmes temas referentes ao homossexualismo, e à inserção dos negros na sociedade daquela época.
Por que será que Alice Guy-Blaché não está nos livros que contam a história do cinema e nem tem sua obra estudada por pesquisadores?
Simples: Alice era uma mulher.
Com o auge de Hollywood e a conversão do cinema em uma grande indústria, as mulheres foram cada vez mais relegadas a tarefas subalternas e a historiografia oficial se encarregou de apagar as realizações de Alice Guy e de outras pioneiras.
Nos dias de hoje, atrizes de Holywoodd, como Meryl Streep, estão na luta reivindicando mais valorização das mulheres no meio cinematográfico, mas ainda assim os homens são preponderantes e a história das mulheres nesse meio sempre é relegada a um plano secundário.
Portanto, lembrar e escrever sobre Alice Guy-Blanché é mostrar a verdade de um fato. Ela foi a mulher que inventou o cinema.
Quantos filmes Alice realizou?.
São atribuídos a Alice mais de mil filmes entre 1896 e 1922, no entanto muitos se perderam devido à ação do tempo e à falta de preservação, e hoje restam pouco mais de 300 trabalhos de sua obra cinematográfica.
Entre eles podemos citar “Algie, O Minerador” (1912), que nos apresenta de forma corajosa para a época um estereótipo comportamento de gênero; “Um Tolo e Seu Dinheiro” (1912), com elenco totalmente negro; “Harmonia Enlatada” (1912), uma divertida comédia; ”Limite de Velocidade Matrimonial” (1913), que mostra um protagonismo feminino raro para aquele momento.
E mais: “Filhotes Trocados” (1911), “O Grande Amor Não Tem Homem” (1911), “O Cair das Folhas” (1912) e “A Chegada dos Raios de Sol” (1913).
Muitos de seus filmes (talvez a maior parte) trazem personagens femininas bem trabalhadas, de todas as faixas etárias (de crianças a idosas), protagonistas em relação ao seu destino, cômicas e independentes, além de abordarem com sensibilidade temas do universo feminino.
Esquecida pela história oficial do cinema, Alice veio a falecer em 1968, aos 94 anos de idade, num asilo para idosos, em Mahwah, Nova Jersey/EUA.

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 7

NÃO TENHA MEDO DA CULPA

Ana Maria Ferreira Leandro – colaboradora do Humanitas -  é escritora e jornalista. Atua em Belo Horizonte/MG

Creio que deveríamos abolir da linguagem humana a palavra “culpa”.
Ela tem sido a responsável por todas as culpas do mundo, melhor dizendo, de tudo que acontece e não deveria acontecer.
Ninguém tem culpa, ninguém viu, ninguém sabe, ninguém assume, e as tragédias continuam acontecendo.
E na impossibilidade de se detectar as causas diretas, parece que vão se avolumando em todos os segmentos.
A psicologia explica que a culpa e a ansiedade são altamente destrutivas. Enfraquecendo o ego, elas cerceiam a evolução e deixam o indivíduo mal consigo mesmo.
Segundo os psicanalistas, a culpa não tem função no presente, pois o presente é a vida do agora, onde não se pode perder tempo com culpas e ansiedades.
A primeira reação é sempre atribuir-se a terceiros, de preferência “anônimos”, a responsabilidade sobre erros ocorridos.
Os responsáveis anônimos têm a vantagem de não poder se defender.
Assim generaliza-se a responsabilidade com um “que absurdo, como tiveram a coragem de fazer isto?”
O instinto de autodefesa é tão forte, que o responsável pode também se convencer, que a ocorrência foi apenas um “incidente”, algo que aconteceu porque “estava escrito”.
Aliás, colocar a culpa em “forças invisíveis” é também uma ótima forma de fugir dos problemas, uma vez que estas são inatingíveis. A culpa é do desconhecido...
Ou ainda uma terceira alternativa, a mais cruel e injusta de todas: arruma-se um boi de piranha, algum ingênuo a quem se possa atribuir a culpa.
Se ele não for capaz de provar o contrário, o problema é dele.
Precisamos aprender a lidar de forma diferente com o sentimento de “culpa”.
Mas, definitivamente, o comportamento de isentar-se de responsabilidades, pelo medo do peso de assumir consequências tem levado o ser humano a uma omissão que gera, por outro lado, terríveis resultados em todos os segmentos.
Sem coragem de nos enfrentarmos, dificilmente resolveremos nossas próprias pendências.
Se não sou capaz de reconhecer um ponto fraco meu, como conseguirei vencê-lo?
Na obra “Longe é um lugar que não existe” o autor Richard Bach disse com propriedade: “ignore seus erros e não se livrará deles”.
Outra forma comum do ser humano se omitir de suas falhas é defender-se antes mesmo de ouvir uma orientação, para não errar de novo.
Alguém tenta explicar onde está o engano, mas o responsável se recusa a “ouvir”.
Pensa apenas em se defender, dizer que “não é o culpado”, antes mesmo de entender onde eventualmente pode ter se enganado.
É quando você tem a desagradável impressão de que falou alguns minutos e ele permaneceu em silêncio... Mas não ouvindo! Estava “articulando” sua defesa.
Logo a seguir recomeçam as explicações que antes já haviam sido dadas, e não há nenhum sentido repeti-las. Não tenha medo de enfrentar um erro. Seja capaz de reconhecê-lo.
A culpa maior não é errar, é persistir indefinidamente errando, por se negar a fazer uma reflexão sobre o assunto; por não considerar a necessidade de uma mudança; e por se julgar infalível.
Ninguém é infalível. Viver com êxito significa “aprender”. Assumir erros não é perda de razão, mas coragem de enfrentar mudanças necessárias.
Mudar comportamentos,  crescer recomeçar em novos e melhores caminhos, evoluir, eis o sentido da vida. E em todos os dias recomeça um novo tempo de fazê-lo.
Deixar de reconhecer falhas por medo da culpa é perder a oportunidade da experiência.
Não sinta culpas... Tenha sim, a competência de reconhecer seus limites e superá-los. Pois você foi feito para vencer a si mesmo... Não ao outro!

HUMANITAS – Nº 77 – NOVEMBRO 2018 – PÁGINA 8

Especial para o HUMANITAS

Sempre foi de minha particular predileção exercer o ofício de pensar – esse desprezado e benfazejo “quefazer” que muitas vezes é classificado como exercício de preguiçoso.
Pode ser talvez que esse hábito tenha se agravado depois que o amigo e parceiro deste HUMANITAS, Rafael Rocha, com a generosidade que permeia a sua alma, classificou-me como pensador, coisa que não me molesta nem um pouco, mais bem me enaltece, já que tenho forçado a cachola (vista aqui como “centro do intelecto”) a exercitar-se mais e mais nesse afã.
Foi dessa forma que, especulando sobre a diferença possivelmente existente entre tempo e época, meditei sobre algo evidente, mas que até agora jamais tinha sequer aventado: o conflito que poderia existir entre ele, tempo e época.
Nominado pelos gregos como Cronos, o tempo, na maioria das vezes, é um ser independente (para nós em nossa existência), o qual não se vê passar.
Ocorrendo mais amiúde, enquanto pasmos e mais velhos, podemos permanecer à margem do que de importante sucede na nossa ou na vida alheia, vendo-o transcorrer, muitas vezes sem nos dar conta, o que nos leva – por exemplo – a dizer: isso não foi do meu tempo – significando que não estávamos presente fisicamente falando, daquele fato indicado naquela oportunidade.
No entanto, dizemos amiúde, perfeitamente cônscios, “em minha época”, “isso não foi de minha época”, “nessa época eu ainda não tinha chegado”, patenteando de modo evidente a sutil diferença que pode existir entre um e outro. Admitindo-se que as épocas fazem, sem remissão, parte do tempo como um todo.
Cheguei a este ponto de minhas elucubrações, porém justamente pelos problemas advindos da velhice (e dos seus achaques correlatos) perdi o rumo por onde deveria dirigir meus pensamentos.
Percalço ocasionado pela falha mental denominada popularmente de branco, passei duas semanas sem encontrar a senda central do raciocínio que me faria proceder de forma lúcida, como seria de se esperar daquele “pensador” que o amigo Rafael Rocha identificou existir em mim.
Com isso – e como fruto do branco que toldava minha mente –, em alguns instantes de minhas senis e inócuas meditações, vendo que o meu ateísmo entrava em constante choque com as permanentes demonstrações de religiosidade do povo – “a religiosidade popular, diga-se de passagem, é sazonal, vai e vem, algumas vezes com mais vigor que outras” –, era-me levado a constatar que a necessidade de algo sagrado – repito por ênfase – seria uma das mais prementes posturas do homem.
Inexplicável, por excelência.
Mas descobri em instantes de surpreendente lucidez, que a necessidade do sagrado existente na alma de muitos era similar à necessidade atroz de se sonhar,
Isso, muito embora Antônio Carlos Belchior, cantor e compositor, nascido em Sobral, e falecido em Santa Cruz do Sul, em 2017, em uma das suas belas canções, cujo título era: “Como os nossos pais”, tenha dito: “Não quero lhe falar/ Meu grande amor/ Das coisas que aprendi nos discos”. Versos que sempre me intrigavam, por pensar que os discos pouco ou nada ensinavam, salvo um pouco de melancolia. No entanto, na estrofe seguinte, era dito: “Viver é melhor que sonhar”. E essa afirmativa intrigava-me sobremaneira.
Durante a minha existência, com particular ênfase, em fase em que me dediquei a literatura, sempre imaginei que não era possível viver sem sonhar. O que colocava na minha ordem de valores existenciais, a capacidade de sonhar como mais importante do que viver.
Sonhei inicialmente – era muito jovem (devia ter uns 25, 26 anos), em mudar o Brasil e, com ele, ajudar a mudar o mundo. Sonhei com um país fraterno; sonhei em ser escritor. Sonhei fazer tantas coisas...
E, hoje, não consigo parar de sonhar, ainda que, em alguns momentos, desconfie ser debalde alguns desses sonhos.